Hoje, sempre que se fala em polarização, muitos já querem encerrar o assunto com xingamentos e taxações como “isentão”, “melancia” ou “dissimulado”. Cravar um lado é quase uma lei obrigatória — virou ética, moral e costume; virou cultura. As identificações partidárias, as bandeiras e os candidatos valem mais desgaste do que um diálogo livre, de cobrança real e de posicionamento lúcido e inteligente sobre as pautas realmente relevantes.

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Isso tem gerado cansaço no eleitorado, que começa a perceber que tais brigas e discussões não valem a pena e não transformam a realidade quando ficam apenas no campo ideológico. Entra e sai governo, e tudo continua semelhante ao que já era em gestões passadas.

Uma parte significativa do eleitorado pode, neste momento, estar mudando de pensamento e começando a valorizar mais os resultados do que os lados e as ideologias. “Quem fez, ganha; quem não fez, perde.” Claro que, da perspectiva do povo, isso muitas vezes significa uma rua calçada ou asfaltada a pedido de algum vereador, uma receita de remédio gratuito, uma vaga em hospital — ou até por menos ainda: uma atenção dada com um sorriso simpático e promessas que nem sempre são cumpridas.

Na prática, a polarização é o que tem acontecido com milhões de brasileiros. Ela anula o diálogo antes mesmo de começar, entrega ao cidadão apenas conteúdos do seu próprio nicho — algo que o algoritmo faz muito bem, isolando todos em suas bolhas sociais. Polarização é odiar o próximo sem conhecê-lo, é sacrificar sem saber o preço, é ser cúmplice do outro sem saber o crime — tudo isso apenas por estar “do seu lado”. E a “vista grossa” vem de brinde, acompanhada por doses de hipocrisia e ignorância. Se a blusa é azul, “tamo junto”; se é vermelha, “não merece viver” — e vice-versa.

Pesquisas recentes mostram esse esgotamento na prática. Um levantamento do instituto AtlasIntel, publicado em 2024, apontou que mais de 62% dos brasileiros afirmam estar cansados da polarização política e desejam “novos nomes” fora dos extremos ideológicos. Outros estudos revelam que o interesse por candidaturas técnicas e moderadas tem crescido, especialmente entre os jovens. É um sinal de que parte da sociedade começa a enxergar a política com mais racionalidade e menos emoção — um passo importante, ainda que tímido, rumo à maturidade democrática.

A irracionalidade impera na polarização. Mas uma luz no fim do túnel tem surgido: milhões estão se cansando disso e percebendo que o caminho para uma política de fato efetiva está longe dos discursos radicais pronunciados por políticos que pouco fazem na prática — a não ser atuarem como personagens nas telas de celulares, verdadeiros marqueteiros especialistas em Instagram e TikTok. Estamos na era dos políticos midiáticos.

Milhões de pessoas estão começando a perceber que político precisa ter projeto, formação e preparo. Precisa saber o que fará quando chegar lá — e, principalmente, precisa mostrar resultados. Esse seria o eleitor ideal: aquele cidadão que sabe avaliar propostas e fazer juízos mais duradouros sobre os candidatos, e não aquele que troca voto por areia, tijolo ou saco de cimento.

A maturidade, muitas vezes, vem com um preço muito caro — especialmente quando não se decide aprender com os erros dos outros ou quando não há quem eduque. O Brasil é essa pessoa: cresceu, mas sem educação, e vem construindo, a duras penas, uma maturidade que está surgindo mais dos seus erros do que de ensinamentos.

O país passou por uma longa fase de desinteresse pela política, quando se dizia que “política não se discute”. Isso nos custou décadas de perdas irreparáveis e um atraso civilizacional de séculos. Depois, o Brasil percebeu que tudo se tratava de uma grande manipulação que fingia lados diferentes, mas que, nos bastidores, eram “mais chegados que irmãos”.

Ao perceber isso, nasceu uma pequena chama de singularidade: o discurso de direita e esquerda surgiu em nossas terras. O povo se dividiu e começou a defender lados, bandeiras e candidatos — em vez de desenvolver projetos de governo eficientes e com resultados reais. Agora, a ficha começou a cair. O muito falar sem prática tem se mostrado inútil. A decepção é clara e verdadeira, e parte do povo começa a despertar para algo mais racional, mais inteligente, mais duradouro.

Mas há um risco: depois da polarização — que ainda deve perdurar por alguns anos —, o que virá? Será possível fazer política efetiva e racional sem gastar quase todo o tempo se defendendo de questões ideológicas que não colocam pão na mesa do trabalhador nem promovem ascensão social real? Será que um dia o Brasil vai perceber que ideologia sem prática e sem coerência é apenas discurso radical para atrair votos?

Lembremos daquela música do Legião Urbana:

“Será só imaginação?

Será que nada vai acontecer?

Será que tudo isso é em vão?

Será que vamos conseguir vencer? Oh, oh, oh…”

E, afinal… que país é este?