Capítulo 18— Maria Quitéria
— A senhora por aqui, Dona Maria?
— Por que não? Afinal, servi ao Brasil em vida. Vim saber se ele me serve na morte.
Sorri, não por graça, mas por hábito. Há quem diga que os mortos ganham uma serenidade
imperturbável. Balela. Só aprendemos a rir mais baixo.
— Perdoe o espanto, minha senhora. Não esperava visita tão ilustre.
— Nem eu esperava um Brasil tão morno. Quando lutei, imaginei um país em marcha.
Encontro-o em recesso.
— Há de convir que a senhora marchava diferente. Calças, farda, espada… era quase um

escândalo. A senhora, que empunhou arma por independência, o que diria da dependência
atual?
— Que se libertaram de Portugal para se prender ao protocolo. Trocaram grilhões por
carimbos.
— Falando em carimbos… encontrou-se com a Burocracia Perpétua?
— Encontrei. Disse-me que minha medalha estava “em análise”.
— Ah, a análise eterna…
— Preferia o campo de batalha. Lá ao menos o inimigo se apresentava.
— E aqui se disfarça de norma, minha cara. De decreto, de portaria.
— Pois então, que se lute com outras armas. A espada, hoje, é a palavra.
— E a senhora a maneja bem.
Maria ergueu-se. Sua silhueta, mesmo póstuma, conservava a altivez de quem jamais abaixou a
cabeça, nem à corte, nem ao tempo.
— Vim só lembrá-lo de que o Brasil teve filhas valentes. Algumas vestiram fardas. Outras, fardos.
— E muitas, fardos disfarçados de vestidos.
Ela riu, breve.
— Não esqueça de nós, Brás.
— Não esqueço.
— Porque o país, esse, às vezes esquece.
E sumiu, como veio: sem alarde, sem cerimônia, mas com honra.
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