Capítulo 10 — Aquele que me cantou

Confesso que há coisas que só se ouvem depois da morte, e há vozes que ecoam mesmo depois de terem calado. Dom Pedro foi uma delas.

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Reencontrei-o em algum salão etéreo, de bigodes impecáveis e dedos marcando compassos invisíveis. Trazia consigo um piano imaterial e um ar de maestro esquecido, desses que um dia regeram a alma de uma nação inteira e hoje repousam nos rodapés dos livros escolares, entre uma nota de rodapé e um suspiro pedagógico.

— “Já podeis, da Pátria filhos, ver contente a mãe gentil!”, cantarolou ele, com um

entusiasmo que me pareceu mais vibrante que sincero.Sentei-me à sua frente, curioso. Ali estava o imperador-músico, o que libertou-me com espada numa mão e partitura na outra. Um gesto digno de ópera.

— Lembra-se, Brasil?, disse ele com olhar saudoso. — Daquela tarde à beira do Ipiranga? Não da parte do grito — essa já virou clichê de estátua. Falo da noite seguinte, quando compus o hino.

Ah, rapaz, aquilo sim era fervor patriótico, não esse forró de gabinete que vocês cultivaram depois.

Sorri, ou tentei. Mas era difícil manter o riso diante de um homem que compôs ao piano a própria ideia de liberdade.

— E por que escreveu o hino?, perguntei-lhe. — Era mesmo emoção?

Ele coçou o queixo com dedos imperiais.

— Emoção, vaidade, um pouco de ambos. Mas havia sinceridade. Eu queria que soasse como marcha e oração. Como espada e reza. Entende?

Entendi. Ou fingi que sim. Talvez fosse o modo de um império dizer “te amo” sem perder a compostura.

— Mas, Dom Pedro, de que adiantou? Cantaram teu hino, é verdade… mas depois cantaram outros, e nem sempre afinados. Passaram do “liberdade, liberdade” para o “quem puder mais, chora menos”.

Ele baixou os olhos. Mas logo ergueu-se, orgulhoso. E entoou:

— “Brava gente brasileira! Longe vá… temor servil…”

— Vê, Brasil? Eu tentei. Dei-te versos e independência. Dei-te a chance de te fazeres adulto, mas tu preferiste ser adolescente eterno, rebelde sem causa e com cargo comissionado.

Aquilo me feriu — ou o que quer que se fira num defunto. Mas reconheci a razão. Porque não há dor maior que ouvir uma crítica que vem com afeto.

— Ainda assim, Dom Pedro, tu foste um dos que mais me amaram.

Ele assentiu, com olhos que pareciam conter séculos.

— Sim. E o amor, meu velho… o amor é um hino que se canta mesmo quando desafina.

E antes de partir, deixou-me o último verso, como quem entrega uma relíquia ao herdeiro desleixado:

— “Ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil!”

Fiquei. E morri. Não necessariamente nessa ordem.