Era ele.

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Pero Vaz de Caminha.

O primeiro a escrever-me. Não como um manual, mas como quem descreve um amor novo.

Encontramo-nos numa varanda da eternidade, onde o tempo não passa, apenas repousa.

— “Brasil”, disse ele, com os olhos marejados de lembrança.

— “Não sei se te batizei ou apenas te admirei, mas sei: foste o mais belo susto da minha vida.”

E então, contou-me uma memória de sua carta.

— “Era Páscoa. O mar estava manso, o céu limpo, e a mata… ah, a mata respirava como quem

acabara de acordar. Montamos um altar sob as estrelas, e o frei falava em latim, palavra por

palavra, como se o próprio céu precisasse ser convencido da Ressurreição.”

Fez-se um breve silêncio. Caminha prosseguiu:

— “No meio dos nativos, um rapaz. Jovem, de olhar fundo. Aproximou-se devagar, sem temor.

Seus pés pisavam o chão como se cada folha fosse sagrada. Observou o crucifixo por longos

minutos. Não disse nada. Apenas apontou para o céu. E, com aquele gesto simples, falou mais

do que todos nós juntos.”

Caminha sorriu, nostálgico:

— “Aquele índio entendeu. Não com catecismo, mas com alma. Não com liturgia, mas com

pureza. Ele explicava aos outros, com as mãos, que aquele homem na cruz apontava para algo

maior. Era como se dissesse: ‘há algo além do que vemos’.”

Eu, defunto, apenas escutava. Caminha continuava:

— “Nunca vi tamanha fé num olhar. E não era fé imposta, nem decorada. Era fé como nascente

— brotava. Ali, meu caro Brasil, percebi que o encontro entre mundos não precisa ser guerra. Às

vezes é espanto, é espelho, é ponte.”

Ficamos um tempo em silêncio. O tipo de silêncio que só existe entre aqueles que se entendem

pela memória.

Caminha então suspirou:

— “Fui embora, é verdade. Mas nunca te esqueci. Havia algo em ti… um cheiro de eternidade,

uma brisa que sussurrava promessas. Te escrevi como quem escreve um poema, e não uma ata.

E se hoje me perguntas o que ficou, eu te respondo sem dúvida: ficou aquele gesto. Aquele

dedo apontando o céu. Como um aviso. Como um presságio. Como um amor à primeira fé.”

E eu, já cadáver crônico, senti-me pela primeira vez… nascido.

Naquele instante, não era ainda nação. Nem república. Nem bagunça.

Era só encantamento.

Era só Brasil, ou melhor, Terra de Vera Cruz.