{"id":114,"date":"2025-11-12T12:00:00","date_gmt":"2025-11-12T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=114"},"modified":"2026-02-04T23:01:41","modified_gmt":"2026-02-04T23:01:41","slug":"quebraram-o-meu-vidro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/quebraram-o-meu-vidro\/","title":{"rendered":"Quebraram o meu\u00a0vidro"},"content":{"rendered":"\n<p>16\/10\/2025. Uma quinta-feira comum em Belo Horizonte, a intensa capital mineira. Sa\u00ed do trabalho e dirigi meu velho e estimado carango at\u00e9 a porta da casa da minha namorada, onde encontrei uma vaga banhada pela sombra de uma bela \u00e1rvore. Para melhorar, a vaga estava em frente ao port\u00e3o por onde eu precisaria entrar. Estacionei, certifiquei-me de retirar minha bolsa e carteira e tranquei o carro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-116\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-2.png 1024w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-2-300x225.png 300w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-2-768x576.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A rua \u00e9 movimentada. Como de costume em BH, tem \u00f3timos bares. Como de costume no Brasil, tem um supermercado que oferece duas sacolas de mantimentos b\u00e1sicos por apenas R$ 300. Como de costume nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e9 repleta de c\u00e2meras, cercas el\u00e9tricas e grades.<\/p>\n\n\n\n<p>O combinado era o seguinte: passaria a noite ali e logo cedo sairia para enfrentar outro dia \u00fatil. Como de costume.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, apesar da boa noite de sono e do cl\u00e1ssico p\u00e3o de queijo no caf\u00e9 da manh\u00e3, ao passar pelo mesmo port\u00e3o e me dirigir ao carro, fui surpreendido.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem de uns 40 anos, que evidentemente estava indo para o trabalho, pelo uniforme e pela mochila que visivelmente carregava uma quentinha, me perguntou, ao me ver chegando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPoxa, amigo, quebraram o seu vidro?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Assustado, contornei o ve\u00edculo e constatei: algu\u00e9m tinha estilha\u00e7ado o vidro traseiro do meu carro. Os pap\u00e9is e documentos que estavam no porta-luvas foram revirados.<\/p>\n\n\n\n<p>Indignado, abri a porta e entrei. O aparelho de som seguia intacto. Aparelho de som que ainda toca CD e reproduz as r\u00e1dios belorizontinas. Terminei a confer\u00eancia chegando \u00e0 conclus\u00e3o de que a pessoa que tinha feito aquilo n\u00e3o obteve qualquer vantagem. N\u00e3o achou dinheiro, n\u00e3o achou bens e deixou at\u00e9 mesmo o meu velho aparelho de som.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 realidade, me dirigi ao homem que havia me alertado sobre o vidro estilha\u00e7ado. Sem perceber, ele ficara postado ao lado do carro, lamentando comigo, como se o carro fosse dele, por mais que estivesse indo para o trabalho a p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAcho que quebraram o meu vidro sim, amigo, e n\u00e3o levaram nada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, muita coisa passava pela minha cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que algu\u00e9m escolheria o vidro de um Voyage de mais de quinze anos para quebrar? Ainda mais considerando que n\u00e3o havia nada de valor \u00e0 mostra.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que algu\u00e9m n\u00e3o levaria o aparelho de som? O vidro estava quebrado, o carro revirado\u2026 por que perder essa oportunidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Provavelmente, quem tinha feito aquilo estava longe da sanidade. Quebrou um vidro sem pensar nas consequ\u00eancias, \u00e0 procura de algo que talvez lhe fornecesse condi\u00e7\u00f5es de sobreviver ou de alimentar tudo aquilo que o mantinha longe da sanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo me for\u00e7ando a acreditar que a vida do v\u00e2ndalo desconhecido era, com certeza, mais triste do que a minha, pouco a pouco minha chatea\u00e7\u00e3o se transformava em raiva pura e absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p>Comecei a pensar na quantidade de deveres e obst\u00e1culos que enfrentei no dia anterior e nos que ainda teria de enfrentar naquele dia.<\/p>\n\n\n\n<p>A vaga de estacionamento. O rotativo. As leis de tr\u00e2nsito. A entrega do meu trabalho. A boa rela\u00e7\u00e3o com meus colegas, que pouco tinham a ver com os meus problemas. A hora certa de chegar. O IPVA. O conserto do vidro. A amea\u00e7a de nuvens carregadas sobre o banco de tr\u00e1s de um dos meus poucos bens. O olhar compadecido daquele homem que, com a vida aparentemente mais complicada do que a minha, tinha parado para se solidarizar com o meu vidro quebrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o criminoso, provavelmente viciado, que tinha estilha\u00e7ado o vidro do carro que consegui comprar depois de trabalhar como frentista de posto por dois anos e com a ajuda do meu velho pai, passaria o dia como nas \u00faltimas centenas de dias: sem ter que cumprir qualquer dever dos que citei, ou de todos os outros aos quais os brasileiros n\u00e3o v\u00e2ndalos s\u00e3o submetidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que isso: a pessoa que fez essa sacanagem possui in\u00fameros direitos que eu n\u00e3o tenho e que talvez nunca terei.<\/p>\n\n\n\n<p>O direito de usar drogas na rua sem qualquer repres\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>O direito de ter comida e abrigo gratuitos disponibilizados pelo governo.<\/p>\n\n\n\n<p>O direito de recusar a comida e o abrigo.<\/p>\n\n\n\n<p>O direito de dormir na rua \u00e0s 15h da tarde e roubar pessoas \u00e0s 3h da madrugada.<\/p>\n\n\n\n<p>O direito de cometer crimes e sair completamente impune.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso eu pensava.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem qualquer escolha, afinal, meus deveres continuavam batendo \u00e0 porta, despedi-me da minha namorada e dirigi at\u00e9 o trabalho. Paguei um estacionamento coberto. Subi no elevador para mais 8 horas (sendo otimista) de labuta.<\/p>\n\n\n\n<p>Amargurado e repassando repetidamente os pensamentos que contei, resolvi compartilhar o acontecido com meus colegas de jornada. E, sem qualquer intencionalidade, meus caros colegas fizeram quest\u00e3o de me lembrar que eu moro em uma capital, pior, em uma capital do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de fazer o relato, esperei que as perguntas fossem no seguinte sentido:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVoc\u00ea encontrou o v\u00e2ndalo? Ele pagou pelo que fez?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, talvez pelo fato de meus colegas morarem aqui h\u00e1 mais tempo, talvez por serem mais velhos, talvez por n\u00e3o serem t\u00e3o inocentes quanto eu, ouvi deles os seguintes questionamentos:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas o seu carro tem seguro?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVoc\u00ea tinha deixado mochila, carteira ou celular \u00e0 mostra?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA casa da sua namorada n\u00e3o tinha garagem?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Com educa\u00e7\u00e3o e em um necess\u00e1rio surto estoico, respondi a cada uma das perguntas. Por dentro, se antes sentia raiva, agora o \u00f3dio me consumia. N\u00e3o pelos meus colegas, longe disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas pelo fato de eu ser um jovem, no 15\u00ba andar de um pr\u00e9dio comercial, que trabalharia aquele e pelo menos mais uns dez dias para ganhar o valor que teria que desembolsar para consertar o meu carro.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o bastasse isso, todos ao meu redor pareceram, na maior das boas inten\u00e7\u00f5es, me questionar sobre a quantidade de zelo que tive com o meu ve\u00edculo. Sem querer, cada uma das perguntas fez parecer que o errado em toda aquela hist\u00f3ria era eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Irresignado, cogitei dizer, tamb\u00e9m na maior das boas inten\u00e7\u00f5es, que, ainda que o meu carro n\u00e3o tivesse seguro, ainda que houvesse garagem com muros e cercas, ainda que n\u00e3o fosse uma rua movimentada e repleta de c\u00e2meras, e ainda que eu tivesse deixado celular, carteira e mochila escancarados no banco de tr\u00e1s, aquele sujeito n\u00e3o podia ter quebrado o meu vidro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas preferi n\u00e3o dizer o \u00f3bvio, j\u00e1 que provavelmente soaria rude. Rude porque as perguntas dos meus colegas mais pareceram conselhos e demonstra\u00e7\u00f5es de empatia, que aos ouvidos de um jovem trabalhador raivoso soaram absurdas.<\/p>\n\n\n\n<p>Findado o turno, pensei em passar em um dos belos bares que comentei para tentar fugir da realidade. Por sorte, antes resolvi ligar para as oficinas que poderiam reparar o vidro quebrado. Ap\u00f3s constatar o valor do preju\u00edzo, segui para casa. Tinha acabado de descobrir que cada cerveja que eu deixasse de beber serviria para ajudar no preju\u00edzo mais injusto que j\u00e1 tive.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardei o carro na garagem descoberta do meu apartamento. Ou melhor, do apartamento que alugo. Tomei um banho, deitei-me e orei para que naquela noite Belo Horizonte n\u00e3o recebesse uma chuva.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo que quer que se acredite, o meu pedido foi atendido. Levei o carro seco e quebrado at\u00e9 a oficina que me apresentara um or\u00e7amento salgado, ao menos menos salgado que os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar l\u00e1, deparei-me com outro fato assustador, mas n\u00e3o mais surpreendente: mais de uma dezena de carros com o vidro quebrado. Alguns mais novos, alguns mais velhos e alguns bem velhos. Todos com algo em comum: um motorista chateado, tamb\u00e9m repleto de deveres e usufrutu\u00e1rio de poucos direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Vi que n\u00e3o existia apenas um v\u00e2ndalo, mas dezenas deles. Vi que n\u00e3o havia apenas eu inconformado, mas v\u00e1rios lesados.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei do homem que havia me alertado sobre o vidro na manh\u00e3 anterior. Apesar de n\u00e3o ter um carro, a sua mochila de quentinha ou o celular que carregava no jeans surrado tamb\u00e9m poderiam ser levados em qualquer dia e a qualquer momento por uma das dezenas de v\u00e2ndalos impunes que habitam e ocupam as ruas da capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei da minha namorada, que divide a casa, sem garagem, com outras meninas, pelo pre\u00e7o salgado do aluguel. Salgado pela necess\u00e1ria proximidade com o local de trabalho, j\u00e1 que o transporte p\u00fablico n\u00e3o funciona bem e o Uber precisa ficar barato. Sem falar que cada corrida precisa ser calculada para ser pedida ainda dentro de casa ou dentro do trabalho, j\u00e1 que a rua est\u00e1 repleta de pessoas como a que ultrajou o meu carro.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta do lapso, perguntei ao mec\u00e2nico:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsso \u00e9 normal? Digo, ter tantos carros assim?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, com uma risada de canto e em tom de consolo, ele respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPior que sim. S\u00e3o muitos carros por dia, como de costume.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, lembrei que, como de costume em BH, os bons bares est\u00e3o sempre lotados de pessoas compartilhando epis\u00f3dios injustos como o meu.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei que, como de costume no Brasil, mais se questiona a maneira como voc\u00ea evita e lida com as injusti\u00e7as do que se enfrenta e responsabiliza quem as causa.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei do porqu\u00ea, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e9 costume que as coisas estejam t\u00e3o caras e as ruas repletas de c\u00e2meras, cercas e vidros quebrados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>16\/10\/2025. Uma quinta-feira comum em Belo Horizonte, a intensa capital mineira. Sa\u00ed do trabalho e dirigi meu velho e estimado carango at\u00e9 a porta da casa da minha namorada, onde encontrei uma vaga banhada pela sombra de uma bela \u00e1rvore. Para melhorar, a vaga estava em frente ao port\u00e3o por onde eu precisaria entrar. 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