{"id":129,"date":"2025-10-30T12:00:00","date_gmt":"2025-10-30T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=129"},"modified":"2026-02-04T23:09:34","modified_gmt":"2026-02-04T23:09:34","slug":"memorias-postumas-de-bras-capitulo-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/memorias-postumas-de-bras-capitulo-19\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Bras \u2013 Cap\u00edtulo\u00a019"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cap\u00edtulo 19 \u2013 Das correntes<\/h2>\n\n\n\n<p>Preciso confessar, agora que tudo passou, ou que todos \ufb01ngem que passou, que fui senhor de muitos cativeiros. Digo isso n\u00e3o com orgulho, tampouco com arrependimento: ambos s\u00e3o luxos in\u00fateis \u00e0 altura em que escrevo. Digo-o porque \u00e9 verdade. E h\u00e1 verdades que, por mais inc\u00f4modas, precisam ser vomitadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui senhor. De corpos, de almas, de futuros. Fui dono de homens. E n\u00e3o apenas de um tipo, n\u00e3o me acusem de seletividade. Submeti o ind\u00edgena, o negro, o branco miser\u00e1vel. Qualquer um que pudesse ser curvado ao peso da necessidade foi arrastado para minha engrenagem. A escravid\u00e3o, para mim, era uma ferramenta, n\u00e3o um dogma. Onde houvesse for\u00e7a \u00fatil, ali eu plantava minha corrente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chatgpt-image-oct-30-2025-09_55_03-pm-683x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-130\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chatgpt-image-oct-30-2025-09_55_03-pm-683x1024.png 683w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chatgpt-image-oct-30-2025-09_55_03-pm-200x300.png 200w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chatgpt-image-oct-30-2025-09_55_03-pm-768x1152.png 768w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chatgpt-image-oct-30-2025-09_55_03-pm.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cEra um sonho dantesco\u2026 o tombadilho \/ Que das luzernas avermelha o brilho\u201d. Vi isso, n\u00e3o no mar apenas, mas nas fazendas, nas minas, nos campos.<\/p>\n\n\n\n<p>Vi crian\u00e7as caladas como espectros, homens com os olhos ocos, mulheres gr\u00e1vidas do pr\u00f3prio desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMil almas no por\u00e3o presas!\u201d, sufocadas, misturadas, indistintas. Apenas n\u00fameros de carga. Apenas custo e rendimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomei o \u00edndio pela m\u00e3o, dizendo-lhe que conheceria o C\u00e9u. Ao inv\u00e9s disso, dei-lhe o inferno em terra \ufb01rme.<\/p>\n\n\n\n<p>Trouxe o negro nos navios, cobertos de fezes, v\u00f4mitos e preces. n\u00e3o as preces que sobem, mas as que afogam.<\/p>\n\n\n\n<p>Pus o branco pobre na enxada, sem ferros nos p\u00e9s, mas com a d\u00edvida nos ombros. Todos escravizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Uns por correntes. Outros por promessas. A maioria por fome.<\/p>\n\n\n\n<p>Construi um pa\u00eds com isso. Um imp\u00e9rio de carne.<\/p>\n\n\n\n<p>Um tear de ossos. Uma engrenagem que triturava tudo e devolvia a\u00e7\u00facar, ouro e caf\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>A liberdade, sim, veio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o t\u00e3o cedo quanto devia, nem t\u00e3o tarde quanto poderia. E ainda culparam a doce Isabel que nunca alimentou tal covardia.<\/p>\n\n\n\n<p>Assinou sem teatralidade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o a desprezo, como alguns gostariam de imaginar. Ela foi justa, ainda que insu\ufb01ciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi alforria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o problema n\u00e3o est\u00e1 nela, e sim no que \ufb01zeram dela. Hoje, ningu\u00e9m quer mais liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Querem revanche.<\/p>\n\n\n\n<p>Querem inverter o pelourinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Passar o chicote \u00e0 outra m\u00e3o. Culpar quem nunca teve a culpa.<\/p>\n\n\n\n<p>Transformar dor em capital pol\u00edtico, ressentimento em heran\u00e7a, culpa em moeda de troca.<\/p>\n\n\n\n<p>O negro n\u00e3o quer esquecer. O branco \ufb01nge que nunca soube.<\/p>\n\n\n\n<p>E os novos senhores de hoje vivem de sustentar o trauma como se ele fosse uma institui\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSenhor Deus!\u2026 Dizei-me v\u00f3s, Senhor Deus!\u2026 Se \u00e9 loucura\u2026 se \u00e9 verdade\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9 verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Loucura \u00e9 continuar \ufb01ngindo que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 algo mais perverso que o navio negreiro, eu n\u00e3o sei, mas o que veio depois dele? a musei\ufb01ca\u00e7\u00e3o do sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A ind\u00fastria da culpa.<\/p>\n\n\n\n<p>A reinven\u00e7\u00e3o da corrente, agora mais sutil, mais simb\u00f3lica, mas ainda corrente.<\/p>\n\n\n\n<p>E voc\u00ea, leitor, se julga livre?<\/p>\n\n\n\n<p>Veja bem com que linguagem fala, com que discurso se alimenta, com que hist\u00f3ria se identi\ufb01ca. Talvez carregue tamb\u00e9m, nos ombros ou nas palavras, algum tipo de cativeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cap\u00edtulo 19 \u2013 Das correntes Preciso confessar, agora que tudo passou, ou que todos \ufb01ngem que passou, que fui senhor de muitos cativeiros. Digo isso n\u00e3o com orgulho, tampouco com arrependimento: ambos s\u00e3o luxos in\u00fateis \u00e0 altura em que escrevo. Digo-o porque \u00e9 verdade. E h\u00e1 verdades que, por mais inc\u00f4modas, precisam ser vomitadas. 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