{"id":132,"date":"2025-10-28T12:00:00","date_gmt":"2025-10-28T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=132"},"modified":"2026-02-04T23:09:11","modified_gmt":"2026-02-04T23:09:11","slug":"o-que-e-o-analfabetismo-funcional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/o-que-e-o-analfabetismo-funcional\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 o analfabetismo\u00a0funcional?"},"content":{"rendered":"\n<p>J\u00e1 se perguntou o que \u00e9 um analfabeto funcional?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-12.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-133\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-12.png 1024w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-12-300x225.png 300w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/image-12-768x576.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 aquele que l\u00ea, mas n\u00e3o entende.<\/p>\n\n\n\n<p>Que escreve, mas n\u00e3o comunica.<\/p>\n\n\n\n<p>Que fala muito, mas diz pouco, ou nada.<\/p>\n\n\n\n<p>O analfabeto funcional \u00e9 o produto de uma cultura que trocou o sentido pela apar\u00eancia. Ele domina as letras, mas n\u00e3o o esp\u00edrito delas. \u00c9 capaz de escrever textos inteiros sem uma \u00fanica ideia. Em vez de clareza, cultiva o mist\u00e9rio do vazio. E quanto mais incompreens\u00edvel se torna, mais acredita ser profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivemos cercados por esse tipo de discurso. Ele aparece em jornais, universidades, pol\u00edticas p\u00fablicas e discursos parlamentares. H\u00e1 textos pol\u00edticos que se estendem por p\u00e1ginas inteiras, repletos de \u201cproposi\u00e7\u00f5es interdisciplinares de car\u00e1ter transversal e dial\u00f3gico\u201d, mas que, ao fim, n\u00e3o dizem absolutamente nada. Soa culto, elegante, t\u00e9cnico,&nbsp; parece importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, se voc\u00ea tentar entender, n\u00e3o h\u00e1 nada ali. \u00c9 um vento encadernado em palavras. Mas na realidade, \u00e9 preciso compreender a din\u00e2mica intr\u00ednseca das condi\u00e7\u00f5es multifatoriais que, em sua complexa tessitura, delineiam a perspectiva do engajamento cr\u00edtico enquanto via de reestrutura\u00e7\u00e3o do paradigma cognitivo contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>O analfabetismo funcional n\u00e3o \u00e9 falta de estudo, \u00e9 falta de sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a morte do conte\u00fado dentro da forma. \u00c9 a cren\u00e7a de que complexidade \u00e9 sin\u00f4nimo de intelig\u00eancia, quando, na verdade, o s\u00e1bio \u00e9 aquele que torna simples o que \u00e9 profundo, e n\u00e3o o que torna obscuro o que \u00e9 \u00f3bvio.<\/p>\n\n\n\n<p>George Orwell j\u00e1 dizia que \u201co decl\u00ednio da linguagem tem causas pol\u00edticas e econ\u00f4micas\u201d, e que as palavras vazias s\u00e3o o ref\u00fagio dos que n\u00e3o querem ser compreendidos. Monteiro Lobato tamb\u00e9m via nisso uma doen\u00e7a nacional: o falar bonito sem dizer nada, o culto ao jarg\u00e3o, a pregui\u00e7a de pensar. O verdadeiro intelectual, o verdadeiro educador, \u00e9 aquele que escreve com clareza, que fala de modo que o povo entenda sem abrir m\u00e3o da verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Um bom texto \u00e9 como uma janela limpa: voc\u00ea olha atrav\u00e9s dela e enxerga o mundo. O texto do analfabeto funcional \u00e9 um espelho emba\u00e7ado: s\u00f3 reflete a pr\u00f3pria vaidade. Portanto, cuidado. O analfabeto funcional pode usar terno, ter diploma, escrever artigos, fazer discursos, at\u00e9 ocupar cargos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se, ao terminar de ouvi-lo, voc\u00ea n\u00e3o sabe o que ele disse, \u00e9 porque ele tamb\u00e9m n\u00e3o sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira sabedoria \u00e9 simples. E \u00e9 justamente por isso que \u00e9 rara.<\/p>\n\n\n\n<p>Pe\u00e7a \u00e0 sua av\u00f3 que te ensine a fazer um bolo de cenoura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela vai dizer assim: \u201cBate a cenoura com o \u00f3leo e os ovos, p\u00f5e o a\u00e7\u00facar, depois a farinha e o fermento. Leva ao forno at\u00e9 dourar. Espeta o garfo, se sair limpo, t\u00e1 pronto.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por vezes o portugu\u00eas dela n\u00e3o sair\u00e1 correto como os t\u00e3o falados doutores, que tu prefere dar ouvido, mas com toda certeza ser\u00e1, simples, direto, verdadeiro. E o bolo sai. \u00c0s vezes n\u00e3o t\u00e3o perfeito \u201c\u00e0 final tu n\u00e3o \u00e9 ela!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, pe\u00e7a a um intelectual moderno que te ensine o mesmo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo \u00e2mbito das pr\u00e1ticas culin\u00e1rias contempor\u00e2neas, \u00e9 fundamental compreender a intera\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica entre os componentes org\u00e2nicos e os agentes levedantes, a fim de se garantir a sinergia estrutural da massa em processo t\u00e9rmico, promovendo, assim, uma experi\u00eancia sensorial texturalmente satisfat\u00f3ria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Pronto. Voc\u00ea n\u00e3o entendeu nada e, pior, perdeu at\u00e9 a vontade de comer o bolo.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 justamente nesse ponto que muitos caem sem perceber. Ali\u00e1s, talvez voc\u00ea tamb\u00e9m tenha ca\u00eddo comigo h\u00e1 pouco, quando escrevi aquele par\u00e1grafo cheio de palavras, com apar\u00eancia de seriedade e estrutura impec\u00e1vel, mas que n\u00e3o dizia absolutamente nada. Dica para voc\u00ea saber qual foi: voc\u00ea n\u00e3o entendeu nada, mas achou que o problema era seu e continuou o texto, me diga ai qual parte foi. .<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, s\u00f3 usei as f\u00f3rmulas de uma reda\u00e7\u00e3o nota 1000 no ENEM, imparcial, desprovida de ideias, mas cheia de conectivos e cita\u00e7\u00f5es de fil\u00f3sofos encaixadas \u00e0 for\u00e7a. N\u00e3o precisa ter repert\u00f3rio de verdade: basta decorar a estrutura.Cada par\u00e1grafo com um argumento, uma fonte, uma explica\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica e uma \u201cproposta de interven\u00e7\u00e3o\u201d. No fim, o corretor te d\u00e1 a nota m\u00e1xima, n\u00e3o por ter pensado, mas por ter imitado bem quem pensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, CALMA!, este texto n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica ao ENEM. Sei que existe um m\u00e9todo, um par\u00e2metro de avalia\u00e7\u00e3o, e que dentro dessa l\u00f3gica ele faz sentido (ou n\u00e3o). Deixemos essa discuss\u00e3o para outro dia.<\/p>\n\n\n\n<p>O que quero dizer aqui \u00e9 outra coisa: estamos sendo programados para escrever com apar\u00eancia de relevantes, mas sem nada a dizer. Aprendemos a parecer profundos, n\u00e3o a ser. A preencher linhas, n\u00e3o a comunicar ideias. E quanto mais perfeita a forma, mais vazio o conte\u00fado. E esse \u00e9 o retrato mais cruel do analfabetismo funcional moderno: n\u00e3o \u00e9 falta de leitura, \u00e9 falta de sentido. \u00c9 a habilidade de falar muito, sem dizer nada, de encher linhas sem tocar o real. A sabedoria, ao contr\u00e1rio, \u00e9 simples. N\u00e3o precisa de adornos, pode t\u00ea-los,&nbsp; mas n\u00e3o faz quest\u00e3o, porque fala daquilo que \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>E talvez, se quisermos voltar a compreender o mundo, tenhamos de reaprender com quem nunca precisou de manual para explicar o \u00f3bvio: a av\u00f3, o trabalhador, o povo que ainda sabe fazer o bolo, e faz\u00ea-lo dar certo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 se perguntou o que \u00e9 um analfabeto funcional? \u00c9 aquele que l\u00ea, mas n\u00e3o entende. Que escreve, mas n\u00e3o comunica. Que fala muito, mas diz pouco, ou nada. O analfabeto funcional \u00e9 o produto de uma cultura que trocou o sentido pela apar\u00eancia. 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