{"id":138,"date":"2025-10-21T12:00:00","date_gmt":"2025-10-21T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=138"},"modified":"2026-03-02T23:40:55","modified_gmt":"2026-03-02T23:40:55","slug":"a-decadencia-da-primeira-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/a-decadencia-da-primeira-arte\/","title":{"rendered":"A decad\u00eancia da Primeira\u00a0Arte"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cEdificaram os altos de Tofete, no vale de Ben\u2011Hinom, para queimar seus filhos e suas filhas no fogo\u202f\u2013\u202fcoisa que Eu jamais ordenei, nem Me passou pela mente.\u201d\u202f(Jr\u202f7,31).<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre esse mesmo vers\u00edculo, comenta Rashi: \u201cChama\u2011se Tofete porque se tocavam tambores (t\u00f4ph) para que o pai n\u00e3o ouvisse o clamor da crian\u00e7a enquanto era queimada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A imagem \u00e9 brutal: tambores estrondosos abafavam o choro das crian\u00e7as oferecidas a\u202fMoloque, permitindo que o sacrif\u00edcio prosseguisse sem que os pais \u201couvissem\u201d sua pr\u00f3pria consci\u00eancia. Hoje n\u00e3o erguemos est\u00e1tuas de bronze aquecidas, mas a l\u00f3gica permanece. As batidas que inundam r\u00e1dios, fones e salas de aula funcionam como novos tambores: encobrem o clamor de uma inf\u00e2ncia sacrificada \u00e0 pornifica\u00e7\u00e3o precoce, \u00e0 glamouriza\u00e7\u00e3o do crime e ao culto do prazer imediato.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bf7ffdb7-d769-46d4-bc22-32ad0126b102-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-139\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bf7ffdb7-d769-46d4-bc22-32ad0126b102-1024x683.png 1024w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bf7ffdb7-d769-46d4-bc22-32ad0126b102-300x200.png 300w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bf7ffdb7-d769-46d4-bc22-32ad0126b102-768x512.png 768w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bf7ffdb7-d769-46d4-bc22-32ad0126b102-600x400.png 600w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bf7ffdb7-d769-46d4-bc22-32ad0126b102.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o basta culpar a escola; os pais tamb\u00e9m colocam fones de ouvido lit\u00fargicos em seus filhos, oferecendo\u2011lhes o lixo sonoro da sociedade, letras que hiper\u2011sexualizam, que banalizam a viol\u00eancia, que trocam imagina\u00e7\u00e3o por puls\u00e3o. Assim como em Topheth o problema era familiar, cultual e nacional ao mesmo tempo, a decad\u00eancia musical de hoje \u00e9 responsabilidade compartilhada: professores, plataformas, gravadoras e lares orbitam a mesma fogueira.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica, primeiro instrumento de ordena\u00e7\u00e3o coletiva, converteu\u2011se em trilha de desordem. O que \u00e9 a m\u00fasica, sen\u00e3o um padr\u00e3o vibrat\u00f3rio que expressa o estado de esp\u00edrito de uma alma, ou, mais profundamente, o esp\u00edrito de uma \u00e9poca? Ao ouvirmos atentamente o que ecoa nas vozes e nos ritmos atuais, percebemos que a m\u00fasica tornou\u2011se o reflexo fiel da interioridade do nosso tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica brasileira, em sua quase totalidade, tem convocado o homem \u00e0 sua face mais instintiva. Pouco importa o g\u00eanero; sertanejo, rap, funk, rock, pagode, reggae, todos parecem convergir para uma est\u00e9tica do corpo, da excita\u00e7\u00e3o, do desejo imediato. H\u00e1 uma insistente apela\u00e7\u00e3o aos sentidos, especialmente ao sexual, como se estiv\u00e9ssemos presos ao eterno retorno do mesmo, sob novas batidas e disfarces.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica \u00e9 uma linguagem sutil, mas poderosa. Ela pode rebaixar a consci\u00eancia de uma sociedade ou elev\u00e1\u2011la ao sublime. Seu ritmo e vibra\u00e7\u00e3o s\u00e3o convites. Convites \u00e0 ordem ou ao caos. Tanto quem comp\u00f5e quanto quem escuta se encontram afetados; ambos s\u00e3o atravessados por uma energia que, em vez de harmonizar, hoje frequentemente gera disson\u00e2ncia. Esta disson\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 apenas sonora, \u00e9 espiritual, social, moral.<\/p>\n\n\n\n<p>A arte musical sempre teve o poder de formar o car\u00e1ter do homem, de estruturar uma sociedade, de oferecer dire\u00e7\u00e3o onde h\u00e1 desorienta\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9, talvez, o mais eficaz dos instrumentos de ordena\u00e7\u00e3o coletiva. Como afirmou Plat\u00e3o: \u201cO n\u00edvel de um Estado pode ser medido pela m\u00fasica que seu governo oferece ao povo.\u201d N\u00e3o se trata de mera est\u00e9tica, mas de engenharia espiritual.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica \u00e9, portanto, uma via, uma estrada que pode conduzir \u00e0 reden\u00e7\u00e3o em um tempo de ru\u00edna cultural. Por isso, o fil\u00f3sofo Roger Scruton dizia que todo aquele que se interessa pelo bem da humanidade deveria tamb\u00e9m contribuir para a eleva\u00e7\u00e3o do gosto musical. A arte sens\u00edvel \u00e9 uma ponte para o sensato. A harmonia musical \u00e9, em ess\u00eancia, um chamado \u00e0 harmonia interior.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos alguns exemplos contempor\u00e2neos:<\/p>\n\n\n\n<p>Oruam, figura do funk atual, em entrevista a Roberto Cabrini, declarou valorizar a fam\u00edlia e se posicionar contra o crime e o tr\u00e1fico de drogas. Contudo, em suas letras exalta o sexo descompromissado, endeusa o crime e retrata criminosos como her\u00f3is involunt\u00e1rios, v\u00edtimas da opress\u00e3o social. \u201c[\u2026] Bandido que \u00e9 bandido \u00e9 sempre respeitado [\u2026]\u201d, diz ele \u2013 e suas palavras ecoam entre ouvidos infantis, moldando imagin\u00e1rios fr\u00e1geis. Que tipo de consci\u00eancia essa est\u00e9tica est\u00e1 formando?<\/p>\n\n\n\n<p>Z\u00e9\u202fFelipe, cantor de forr\u00f3\u2011funk, celebra a simplicidade da vida familiar em suas redes sociais. Entretanto, suas m\u00fasicas contam outra hist\u00f3ria: exaltam a pornografia, celebram a trai\u00e7\u00e3o e a sensualidade vulgarizada. \u201c[\u2026] Ro\u00e7a, ro\u00e7a em mim \/ Tira o chap\u00e9u e a bota \/ E me bota gostosin [\u2026]\u201d, versos que ilustram a dualidade entre discurso e pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Este texto, por\u00e9m, n\u00e3o se prop\u00f5e como cr\u00edtica pessoal a qualquer artista. Basta observar a lista das m\u00fasicas mais ouvidas no Spotify brasileiro para perceber que o conte\u00fado \u00e9, com poucas varia\u00e7\u00f5es, o mesmo. O ritmo pode mudar, o nome do artista tamb\u00e9m, mas a mensagem se mant\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>O desejo pelo sexo, como aqui simbolicamente posto, \u00e9 mais do que um apetite est\u00e9tico. Ele tornou\u2011se um v\u00edcio, uma forma de servid\u00e3o moral inculcada desde a inf\u00e2ncia. A chamada \u201cliberdade sexual\u201d \u00e9 hoje, ironicamente, uma ferramenta de controle social. Enquanto as massas se embriagam de excita\u00e7\u00e3o, uma minoria se alimenta disso, e n\u00e3o me refiro aos cantores, mas ao sistema pol\u00edtico que compreende, h\u00e1 muito, o poder de manipular paix\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe o universo \u00e9 uma m\u00e1quina cuja for\u00e7a primordial \u00e9 a gravidade, e a sociedade uma m\u00e1quina movida pelo interesse pr\u00f3prio, o homem, dessacralizado, torna\u2011se uma engrenagem que funciona a partir da paix\u00e3o como combust\u00edvel. Da\u00ed, controlar as paix\u00f5es \u00e9 controlar os homens.\u201d (Libido\u202fDominandi)<\/p>\n\n\n\n<p>A melhor forma de dominar um povo \u00e9 faz\u00ea\u2011lo sem que perceba estar sendo dominado. E a maneira mais eficaz para isso \u00e9 manipular suas paix\u00f5es, pois o homem tende a se identificar com elas. Ao defend\u00ea\u2011las, ele cr\u00ea estar defendendo sua liberdade, uma liberdade muitas vezes confundida com o direito ilimitado de realizar desejos. Poucos compreendem o quanto esses desejos podem ser moldados desde fora, com precis\u00e3o quase matem\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata aqui de censura, nem de nostalgia moralista. O ru\u00eddo sempre existir\u00e1. O que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 o despertar: o convite a que cada um refine sua escuta, apure seu gosto, perceba o que a m\u00fasica est\u00e1 semeando dentro de si. A arte, ainda que aparentemente desconectada da pol\u00edtica, possui consequ\u00eancias profundas na estrutura do Estado. A primeira arte, a m\u00fasica, continua sendo uma das mais silenciosas, e potentes, for\u00e7as moldadoras da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEdificaram os altos de Tofete, no vale de Ben\u2011Hinom, para queimar seus filhos e suas filhas no fogo\u202f\u2013\u202fcoisa que Eu jamais ordenei, nem Me passou pela mente.\u201d\u202f(Jr\u202f7,31). 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