{"id":165,"date":"2025-09-30T23:29:00","date_gmt":"2025-09-30T23:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=165"},"modified":"2026-03-02T23:37:07","modified_gmt":"2026-03-02T23:37:07","slug":"memorias-postumas-de-bras-capitulo-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/memorias-postumas-de-bras-capitulo-15\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Bras \u2013 Cap\u00edtulo\u00a015"},"content":{"rendered":"\n<p>No al\u00e9m, h\u00e1 lugares em que a mem\u00f3ria ganha forma. Com Get\u00falio, encontrei-me num palanque fantasma, rodeado por um mar de aplausos que s\u00f3 eu ouvia, ou talvez fosse s\u00f3 ele quem os ouvisse ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 estava ele: terno escuro, olhar enterrado em sombras, uma voz que soava como vinil antigo, arranhada, mas \ufb01rme. O pai dos pobres. O padrasto da democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Brasil, meu \ufb01lho\u2026 demoraste.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-16.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-167\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-16.webp 683w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-16-200x300.webp 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u2013 Atrasei-me com Bonif\u00e1cio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sorriu de lado. Aquele sorriso que mistura c\u00e1lculo e cansa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O Patriarca\u2026 ainda sonhando com rep\u00fablicas ilustradas?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Ainda. E tu?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Eu? Eu durmo pouco, mesmo morto. De vez em quando, des\u00e7o at\u00e9 o Pal\u00e1cio do Catete, s\u00f3 pra ouvir os ecos. O povo esquece r\u00e1pido, mas as paredes lembram.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei em volta. O palanque se desfazia aos poucos, como se fosse feito de jornal velho e fuma\u00e7a de com\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Get\u00falio\u2026 por que o tiro? Ele se virou lentamente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Porque fui usado e descartado. Porque percebi que minha morte seria mais \u00fatil que minha vida. E porque, no fundo, achei que assim me entenderiam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 E entenderam?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Entenderam o gesto, n\u00e3o a mensagem. Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Quis falar pela bala o que o microfone n\u00e3o deu conta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 E o que querias dizer?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele encheu os pulm\u00f5es de um ar que n\u00e3o existia, como se ainda tivesse que discursar para um pa\u00eds imagin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Quis dizer que havia dois Brasis: o que trabalha e o que explora. Quis dizer que eu tentei ser ponte, mas fui transformado em armadilha. Que fui pai dos pobres, sim, mas tamb\u00e9m \ufb01ador de muitos v\u00edcios. E que me culparam por tudo, at\u00e9 pelas chuvas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 E tu eras culpado?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Eu era Brasil, Brasil. Como tu. Feito de contradi\u00e7\u00f5es. Amado por uns, odiado por outros, e usado por quase todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhamos lado a lado por um instante. Ele tocava a lapela do palet\u00f3 como quem veri\ufb01ca se ainda carrega um pa\u00eds no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Ainda te invocam de vez em quando, murmurei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Sim. Em jingles, em discursos, em redes sociais. Me ressuscitam toda vez que precisam de um salvador\u2026 e me enterram de novo quando passa a elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 E o que pensas disso?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele parou, encarando-me como se eu fosse um plebiscito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Penso que fui mito antes de virar cad\u00e1ver. Isso \u00e9 perigoso. Porque mito a gente idolatra\u2026 mas n\u00e3o l\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou para o c\u00e9u de nuvem nenhuma e murmurou quase em prece:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSaio da vida para entrar na Hist\u00f3ria\u2026 mas at\u00e9 hoje n\u00e3o decidi se isso foi promo\u00e7\u00e3o ou castigo.\u201d E ent\u00e3o, sumiu como vinheta de r\u00e1dio ao \ufb01m da transmiss\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No al\u00e9m, h\u00e1 lugares em que a mem\u00f3ria ganha forma. Com Get\u00falio, encontrei-me num palanque fantasma, rodeado por um mar de aplausos que s\u00f3 eu ouvia, ou talvez fosse s\u00f3 ele quem os ouvisse ainda. L\u00e1 estava ele: terno escuro, olhar enterrado em sombras, uma voz que soava como vinil antigo, arranhada, mas \ufb01rme. O [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":166,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-165","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/165","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=165"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/165\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":168,"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/165\/revisions\/168"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=165"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=165"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=165"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}