{"id":174,"date":"2025-09-23T12:00:00","date_gmt":"2025-09-23T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=174"},"modified":"2026-03-02T23:33:18","modified_gmt":"2026-03-02T23:33:18","slug":"memorias-postumas-de-bras-capitulo-14","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/memorias-postumas-de-bras-capitulo-14\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Bras \u2013 Cap\u00edtulo\u00a014"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cap\u00edtulo 14 \u2014 inimigo I: O Amarelo<\/h2>\n\n\n\n<p>Aquele homem, o Homem de Amarelo, continuava a me observar, com a calma de quem conhece cada parte do sofrimento que se arrasta. Sua presen\u00e7a era como uma marca, uma dor que eu sabia bem, mas que agora, com a morte, se tornava mais clara, mais forte. E naquele momento, enquanto ele estava ali, perto do meu caix\u00e3o, algo em minha mem\u00f3ria voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei de duas pessoas. Duas \ufb01guras que, embora distantes em espa\u00e7o, se uniam em uma dor comum, a dor da fome que n\u00e3o se sacia, da mis\u00e9ria que n\u00e3o tem \ufb01m. L\u00e1, a terra era poeira. O vento, sil\u00eancio. E o tempo, espera.<\/p>\n\n\n\n<p>Chama-se fome.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-12.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-176\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-12.png 1024w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-12-300x225.png 300w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-12-768x576.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fome de ret\u00f3rica, mas aquela que estala as costelas, que faz os olhos fundos como po\u00e7os secos. Fome de ontem, de hoje e de amanh\u00e3 tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali, na minha mem\u00f3ria, Fabiano ainda caminha. Com seus p\u00e9s rachados e sua fala arrastada. Sinh\u00e1 Vit\u00f3ria cuida do nada. Os meninos\u2026 nem nome t\u00eam direito. E a cachorra Baleia, se ainda vive, \u00e9 s\u00f3 osso e afeto.<\/p>\n\n\n\n<p>A seca, como sempre, impera. Nesse lugar voltei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Fabiano \u2014 chamei.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele apenas olhou, com um olhar sem brilho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Brasil\u2026 por que voltaste?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Quis ver de perto o que deixei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Pois olhe bem \u2014 disse ele. \u2014 Aqui n\u00e3o tem met\u00e1fora. S\u00f3 fome mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>O ch\u00e3o rachava sob meus p\u00e9s. N\u00e3o por causa da terra. Mas por causa do descaso. L\u00e1 longe, sentada num caixote, Carolina escrevia.<\/p>\n\n\n\n<p>Era a favela. Era o lixo. Era a vida. Era ela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOntem n\u00e3o comi. Hoje n\u00e3o comi. Amanh\u00e3 talvez tamb\u00e9m n\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Escrevia assim. Sem v\u00edrgulas para suavizar. Sem adjetivos que embelezem a trag\u00e9dia. Sua frase pesava mais que qualquer tratado econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p>A mis\u00e9ria, ali, n\u00e3o era exce\u00e7\u00e3o. Era regra. Era rotina. Era n\u00famero de IBGE e de l\u00e1pis gasto no caderno achado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Brasil, por que permitiste isso? \u2014 ela perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Achei que ia passar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 E passou?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 N\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela pegou mais uma folha amassada e escreveu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>A fome \u00e9 amarela<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E eu entendi. N\u00e3o era s\u00f3 cor. Era doen\u00e7a. Era aus\u00eancia. Era sol demais e comida de menos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fabiano se juntou a ela. N\u00e3o disse nada. Mas se deitou debaixo de uma \u00e1rvore morta, como quem espera chover dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E ali me lembrei do Amarelo, ouvindo as palavras escritas com dor e poeira.<\/p>\n\n\n\n<p>E, enquanto eu, agora defunto, observava o Homem de Amarelo, sentia que essa mem\u00f3ria se unia, como duas linhas paralelas que nunca se cruzam, mas que seguem na mesma dire\u00e7\u00e3o. Uma na favela, outra no sert\u00e3o. Uma na cidade, outra no campo. Mas a dor era a mesma. N\u00e3o era o lugar que fazia a diferen\u00e7a. Era o sistema que, em sua indiferen\u00e7a, condenava todos \u00e0 mesma mis\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>N\u00e3o \u00e9 a seca que mata, \u00e9 o esquecimento. N\u00e3o \u00e9 a fome que devora, \u00e9 a promessa que nunca se cumpre<\/em>.\u201d Eu podia ouvir essas palavras agora, mais claras do que nunca, como se o tempo tivesse sido dilatado pela mem\u00f3ria de um Brasil que n\u00e3o sabia mais para onde ir.<\/p>\n\n\n\n<p>O Homem de Amarelo se aproximou mais, e eu sabia que ele n\u00e3o estava ali para me consolar. Ele estava ali para lembrar que, enquanto houver pol\u00edticos de estima\u00e7\u00e3o que alimentam a fome com promessas vazias, nada vai mudar. As barrigas cheias de fome continuar\u00e3o a crescer, n\u00e3o de comida, mas de uma falta de dignidade que se perpetua.<\/p>\n\n\n\n<p>E no \ufb01m, o que restar\u00e1 ser\u00e1 mais um ciclo vicioso, mais uma gera\u00e7\u00e3o condenada a esperar o que nunca vir\u00e1. O Homem de Amarelo n\u00e3o era apenas um espectro, ele era o s\u00edmbolo do que n\u00e3o queremos mais ver, do que n\u00e3o devemos mais aceitar. Ele representava n\u00e3o apenas a mis\u00e9ria, mas a estrutura que a sustenta, alimentada por aqueles que deveriam mudar, mas que nunca mudam nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, deitado, sem voz, sem vida, eu sabia: o verdadeiro inimigo nunca ser\u00e1 o pobre, mas o Amarelo, ou melhor, aqueles que se aproveitam da pobreza para se manter no poder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cap\u00edtulo 14 \u2014 inimigo I: O Amarelo Aquele homem, o Homem de Amarelo, continuava a me observar, com a calma de quem conhece cada parte do sofrimento que se arrasta. Sua presen\u00e7a era como uma marca, uma dor que eu sabia bem, mas que agora, com a morte, se tornava mais clara, mais forte. 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