{"id":218,"date":"2025-08-26T00:00:00","date_gmt":"2025-08-26T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=218"},"modified":"2026-03-03T00:51:15","modified_gmt":"2026-03-03T00:51:15","slug":"memorias-postumas-de-bras-capitulo-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/memorias-postumas-de-bras-capitulo-10\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Bras \u2013 Cap\u00edtulo\u00a010"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cap\u00edtulo 10 \u2014 Aquele que me cantou<\/h2>\n\n\n\n<p>Confesso que h\u00e1 coisas que s\u00f3 se ouvem depois da morte, e h\u00e1 vozes que ecoam mesmo depois de terem calado. Dom Pedro foi uma delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Reencontrei-o em algum sal\u00e3o et\u00e9reo, de bigodes impec\u00e1veis e dedos marcando compassos invis\u00edveis. Trazia consigo um piano imaterial e um ar de maestro esquecido, desses que um dia regeram a alma de uma na\u00e7\u00e3o inteira e hoje repousam nos rodap\u00e9s dos livros escolares, entre uma nota de rodap\u00e9 e um suspiro pedag\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/bed3fa66-c74c-4d65-b50b-8be14c86be06-683x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-220\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/bed3fa66-c74c-4d65-b50b-8be14c86be06-683x1024.png 683w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/bed3fa66-c74c-4d65-b50b-8be14c86be06-200x300.png 200w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/bed3fa66-c74c-4d65-b50b-8be14c86be06-768x1152.png 768w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/bed3fa66-c74c-4d65-b50b-8be14c86be06.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u2014 \u201cJ\u00e1 podeis, da P\u00e1tria filhos, ver contente a m\u00e3e gentil!\u201d, cantarolou ele, com um<\/p>\n\n\n\n<p>entusiasmo que me pareceu mais vibrante que sincero.Sentei-me \u00e0 sua frente, curioso. Ali estava o imperador-m\u00fasico, o que libertou-me com espada numa m\u00e3o e partitura na outra. Um gesto digno de \u00f3pera.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Lembra-se, Brasil?, disse ele com olhar saudoso. \u2014 Daquela tarde \u00e0 beira do Ipiranga? N\u00e3o da parte do grito \u2014 essa j\u00e1 virou clich\u00ea de est\u00e1tua. Falo da noite seguinte, quando compus o hino.<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, rapaz, aquilo sim era fervor patri\u00f3tico, n\u00e3o esse forr\u00f3 de gabinete que voc\u00eas cultivaram depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorri, ou tentei. Mas era dif\u00edcil manter o riso diante de um homem que comp\u00f4s ao piano a pr\u00f3pria ideia de liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E por que escreveu o hino?, perguntei-lhe. \u2014 Era mesmo emo\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele co\u00e7ou o queixo com dedos imperiais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Emo\u00e7\u00e3o, vaidade, um pouco de ambos. Mas havia sinceridade. Eu queria que soasse como marcha e ora\u00e7\u00e3o. Como espada e reza. Entende?<\/p>\n\n\n\n<p>Entendi. Ou fingi que sim. Talvez fosse o modo de um imp\u00e9rio dizer \u201cte amo\u201d sem perder a compostura.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas, Dom Pedro, de que adiantou? Cantaram teu hino, \u00e9 verdade\u2026 mas depois cantaram outros, e nem sempre afinados. Passaram do \u201cliberdade, liberdade\u201d para o \u201cquem puder mais, chora menos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele baixou os olhos. Mas logo ergueu-se, orgulhoso. E entoou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u201cBrava gente brasileira! Longe v\u00e1\u2026 temor servil\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 V\u00ea, Brasil? Eu tentei. Dei-te versos e independ\u00eancia. Dei-te a chance de te fazeres adulto, mas tu preferiste ser adolescente eterno, rebelde sem causa e com cargo comissionado.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo me feriu \u2014 ou o que quer que se fira num defunto. Mas reconheci a raz\u00e3o. Porque n\u00e3o h\u00e1 dor maior que ouvir uma cr\u00edtica que vem com afeto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ainda assim, Dom Pedro, tu foste um dos que mais me amaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele assentiu, com olhos que pareciam conter s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sim. E o amor, meu velho\u2026 o amor \u00e9 um hino que se canta mesmo quando desafina.<\/p>\n\n\n\n<p>E antes de partir, deixou-me o \u00faltimo verso, como quem entrega uma rel\u00edquia ao herdeiro desleixado:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u201cOu ficar a P\u00e1tria livre, ou morrer pelo Brasil!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei. E morri. N\u00e3o necessariamente nessa ordem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cap\u00edtulo 10 \u2014 Aquele que me cantou Confesso que h\u00e1 coisas que s\u00f3 se ouvem depois da morte, e h\u00e1 vozes que ecoam mesmo depois de terem calado. Dom Pedro foi uma delas. Reencontrei-o em algum sal\u00e3o et\u00e9reo, de bigodes impec\u00e1veis e dedos marcando compassos invis\u00edveis. 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