{"id":222,"date":"2025-08-21T00:51:00","date_gmt":"2025-08-21T00:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=222"},"modified":"2026-04-14T22:40:27","modified_gmt":"2026-04-14T22:40:27","slug":"o-anseio-por-um-heroi-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/o-anseio-por-um-heroi-nacional\/","title":{"rendered":"O anseio por um her\u00f3i\u00a0nacional"},"content":{"rendered":"\n<p>O imagin\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 um \u00e1lbum est\u00e1tico de lembran\u00e7as, \u00e9 um organismo vivo. Nele circulam ideias, s\u00edmbolos, mem\u00f3rias e experi\u00eancias que d\u00e3o forma \u00e0 nossa vis\u00e3o de mundo. \u00c9 a lente invis\u00edvel pela qual interpretamos a realidade, a fonte de nossas aspira\u00e7\u00f5es e do sentido que damos \u00e0s coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o nosso imagin\u00e1rio coletivo, outrora robusto e plural, hoje parece fr\u00e1gil e uniformizado. N\u00e3o se alimenta mais de grandes narrativas hist\u00f3ricas ou de her\u00f3is atemporais, mas de acontecimentos passageiros, moldados e embalados por redes sociais e ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. E, nesse cen\u00e1rio empobrecido, a busca por um her\u00f3i nacional tornou-se quase compulsiva.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/create-a-highly-detailed-and-sharp-focused-featured-image-for-a.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-223\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/create-a-highly-detailed-and-sharp-focused-featured-image-for-a.png 1024w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/create-a-highly-detailed-and-sharp-focused-featured-image-for-a-300x225.png 300w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/create-a-highly-detailed-and-sharp-focused-featured-image-for-a-768x576.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Basta um instante de brilho e, de repente, algu\u00e9m \u00e9 erguido ao pante\u00e3o simb\u00f3lico: vimos isso com Richarlison, que, ap\u00f3s um gol memor\u00e1vel, foi al\u00e7ado a uma figura quase pol\u00edtica; agora, com Felca, cuja den\u00fancia important\u00edssima e relevante despertou tentativas de transform\u00e1-lo no novo salvador da p\u00e1tria. O mesmo se repete com l\u00edderes pol\u00edticos como Lula ou Bolsonaro, figuras cujos adeptos e detratores os tratam como se fossem encarna\u00e7\u00f5es de um ideal coletivo. A pergunta inevit\u00e1vel \u00e9: por que precisamos, t\u00e3o r\u00e1pido e t\u00e3o desesperadamente, criar her\u00f3is?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta est\u00e1 na mutila\u00e7\u00e3o da nossa mem\u00f3ria hist\u00f3rica. As escolas, que deveriam ser guardi\u00e3s dessa heran\u00e7a, muitas vezes silenciam ou distorcem o passado. Isso n\u00e3o \u00e9 um acidente. Edmund Burke j\u00e1 alertava: \u201cUm povo que n\u00e3o conhece sua hist\u00f3ria est\u00e1 fadado a repeti-la.\u201d Retirar de um povo o conhecimento de suas ra\u00edzes \u00e9 priv\u00e1-lo de identidade e, portanto, de for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez porque, no fundo, vivamos uma car\u00eancia simb\u00f3lica. Nosso imagin\u00e1rio hist\u00f3rico foi mutilado. As escolas, que poderiam preservar e transmitir her\u00f3is coletivos, muitas vezes os silenciam ou distorcem, at\u00e9 que reste apenas um vazio. E, diante do vazio, buscamos qualquer rosto que pare\u00e7a capaz de preencher o lugar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/mgmbl.wordpress.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ce962364-ced1-4229-8da1-8aaa7ae0d6ec.png?w=683\" alt=\"\" class=\"wp-image-1120\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Essa supress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria. Edmund Burke advertiu: \u201cUm povo que n\u00e3o conhece sua hist\u00f3ria est\u00e1 fadado a repeti-la.\u201d A hist\u00f3ria de um povo \u00e9 insepar\u00e1vel de sua identidade, de seus valores e tradi\u00e7\u00f5es. Ao desconhec\u00ea-la, perde-se a refer\u00eancia do que se \u00e9, dissolvendo o senso de pertencimento e a capacidade de se unir em torno de causas comuns. Conhecer a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas quest\u00e3o de mem\u00f3ria, mas de lucidez: permite compreender o presente, perceber as origens das estruturas sociais e pol\u00edticas e reconhecer os erros que n\u00e3o devem ser repetidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a hist\u00f3ria \u00e9 abafada, surgem dois efeitos perversos. Primeiro, a popula\u00e7\u00e3o perde seu eixo moral e cultural, ficando \u00f3rf\u00e3 de exemplos e narrativas que poderiam inspirar e orientar. Segundo, cria-se um terreno f\u00e9rtil para manipula\u00e7\u00e3o: sem mem\u00f3ria coletiva, torna-se mais f\u00e1cil reescrever o passado, distorcer o presente e vender futuros ilus\u00f3rios. Nesse sentido, sufocar her\u00f3is e eventos hist\u00f3ricos n\u00e3o \u00e9 apenas descaso, \u00e9 estrat\u00e9gia de poder, um povo \u00f3rf\u00e3o de refer\u00eancias fortes aceita mais facilmente salvadores de ocasi\u00e3o. E isso interessa a quem prefere cidad\u00e3os desorientados e dependentes.<\/p>\n\n\n\n<p>No passado, os her\u00f3is n\u00e3o eram fabricados por hashtags; eram forjados no entrechoque entre destino e a\u00e7\u00e3o. Deodoro da Fonseca, com sua imagem de velho militar deposto de gl\u00f3rias mon\u00e1rquicas, ainda assim encarnava o ato dram\u00e1tico de derrubar um imp\u00e9rio. Floriano Peixoto, \u201co Marechal de Ferro\u201d, ganhou estatura ao sufocar revoltas e segurar a Rep\u00fablica nascente, ainda que dividida entre for\u00e7as militares e civis. Frei Caneca, m\u00e1rtir da Confedera\u00e7\u00e3o do Equador, possu\u00eda coragem e convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o houve Tiradentes, aquele que reuniu todos os elementos para ser eternizado: republicanismo precoce, origem em regi\u00e3o central do poder, e sobretudo uma morte que permitiu associ\u00e1-lo \u00e0 figura de Cristo, conferindo-lhe a aura perfeita para o imagin\u00e1rio da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve ainda outros her\u00f3is poss\u00edveis, como os ind\u00edgenas idealizados pelo indianismo rom\u00e2ntico, na aus\u00eancia de cavaleiros medievais, o Brasil elevou o nativo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o m\u00edtica. Ou a princesa Isabel, libertadora da escravid\u00e3o. Ou Machado de Assis, cuja pena ergueu a literatura nacional a um patamar universal.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, por\u00e9m, nossa cultura hist\u00f3rica \u00e9 rasa. O que n\u00e3o \u00e9 silenciado \u00e9 relativizado; o que n\u00e3o \u00e9 relativizado \u00e9 caricaturado. As narrativas que poderiam nos dar coes\u00e3o s\u00e3o fragmentadas, substitu\u00eddas por entretenimento vazio ou lutas artificiais criadas para dividir e distrair.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso imagin\u00e1rio est\u00e1 debilitado, e isso n\u00e3o \u00e9 apenas consequ\u00eancia do descaso. Um povo sem mem\u00f3ria \u00e9 um povo sem b\u00fassola, e um povo sem b\u00fassola segue qualquer farol, mesmo que o leve ao naufr\u00e1gio. E talvez, no fundo, essa busca por um her\u00f3i nacional n\u00e3o seja apenas nostalgia ou esperan\u00e7a, seja um grito silencioso de um povo que perdeu seus espelhos e, sem eles, n\u00e3o sabe mais para onde olhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O imagin\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 um \u00e1lbum est\u00e1tico de lembran\u00e7as, \u00e9 um organismo vivo. 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