{"id":263,"date":"2025-07-25T22:42:00","date_gmt":"2025-07-25T22:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=263"},"modified":"2026-04-14T22:44:19","modified_gmt":"2026-04-14T22:44:19","slug":"transporte-gratuito-mas-a-que-custo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/transporte-gratuito-mas-a-que-custo\/","title":{"rendered":"Transporte gratuito, mas a que\u00a0custo?"},"content":{"rendered":"\n<p>A ideia de tarifa zero no transporte coletivo soa, \u00e0 primeira vista, como uma utopia moderna. Um gesto de inclus\u00e3o, um avan\u00e7o social. Mas como toda utopia imposta de cima para baixo, ela carrega consigo mais perguntas do que respostas, e mais riscos do que solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"409\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-16.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-266\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-16.png 800w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-16-300x153.png 300w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-16-768x393.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Quem vai custear o servi\u00e7o? Essa \u00e9 a pergunta que paira sobre Juiz de Fora desde que se intensificaram as discuss\u00f5es sobre a gratuidade total no transporte. A passagem est\u00e1 congelada em R$\u202f3,75 desde 2019. Segundo a Prefeitura, o custo mensal do transporte gira em torno de R$\u202f30 milh\u00f5es, dos quais R$\u202f20 milh\u00f5es v\u00eam da venda de bilhetes e os outros R$\u202f10 milh\u00f5es saem dos cofres p\u00fablicos em forma de subs\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a proposta de tarifa zero, a Prefeitura pretende alimentar o sistema por meio do chamado Fundo Municipal de Transporte, que seria abastecido por tr\u00eas frentes: (1) uma tarifa t\u00e9cnica mensal de cerca de R$\u202f250 por trabalhador, cobrada de empresas com mais de 10 funcion\u00e1rios; (2) recursos do or\u00e7amento municipal; e (3) repasses da Uni\u00e3o e do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas basta uma leitura menos ing\u00eanua para perceber que estamos, talvez, diante de mais um canal nebuloso para o uso dos recursos p\u00fablicos. Isso porque, at\u00e9 hoje, n\u00e3o existe uma rubrica clara no or\u00e7amento para o subs\u00eddio ao transporte. A Prefeitura prefere agrupar tudo sob o gen\u00e9rico \u201cgest\u00e3o do transporte coletivo\u201d, usando instrumentos legais como o cr\u00e9dito suplementar o que, embora previsto em lei, dificulta a fiscaliza\u00e7\u00e3o e a transpar\u00eancia. Para piorar, n\u00e3o h\u00e1 divulga\u00e7\u00e3o dos c\u00e1lculos que justificam os valores repassados ao Cons\u00f3rcio Via JF, que det\u00e9m a concess\u00e3o do sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que a cidade recebeu em troca? Um sistema que se deteriora a olhos vistos. A prefeita Margarida Salom\u00e3o, ao manter a tarifa congelada e criar o \u201cDoming\u00e3o de Bus\u00e3o\u201d&nbsp;&nbsp;gratuidade aos domingos e feriados, viu o subs\u00eddio explodir: de R$\u202f14,7 milh\u00f5es em 2021 para R$\u202f150,6 milh\u00f5es em 2024. Um salto de mais de 900%.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o n\u00famero de passageiros despencou. Em 2018, mais de 102 milh\u00f5es de embarques foram registrados. Em 2023, apenas 76 milh\u00f5es e 29,4% desses eram de gratuidades. Ou seja, o sistema custa cada vez mais, transporta cada vez menos e depende, em grau crescente, do dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a quest\u00e3o vai al\u00e9m da matem\u00e1tica. Vai al\u00e9m da planilha.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-17-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-265\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-17-1024x683.png 1024w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-17-300x200.png 300w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-17-768x512.png 768w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-17-600x400.png 600w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-17.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O transporte coletivo em Juiz de Fora se tornou um risco real \u00e0 vida do cidad\u00e3o. Em 2025, a cidade viu acidentes que expuseram o sucateamento da frota e a neglig\u00eancia com a manuten\u00e7\u00e3o dos \u00f4nibus:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>14 de maio: um \u00f4nibus da linha 705 despencou \u00e0s margens do Rio Paraibuna. Duas mulheres ficaram gravemente feridas. O ve\u00edculo apresentava falha na dire\u00e7\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>19 de maio: um micro-\u00f4nibus da linha 300 capotou num barranco no bairro Niter\u00f3i. Oito feridos. Dois mortos.<\/li>\n\n\n\n<li>20 de mar\u00e7o: um engavetamento no Centro envolveu ambul\u00e2ncia, \u00f4nibus e outros ve\u00edculos. Sem v\u00edtimas graves, mas revelador: os freios n\u00e3o responderam a tempo.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a falta de conforto. \u00c9 o colapso da seguran\u00e7a. A cidade respira com dificuldade, engasgada entre relevos acidentados, pontes estreitas, um rio central e um sistema radial obsoleto, que concentra todos os \u00f4nibus no Centro. Como alerta o engenheiro Carlos Ant\u00f4nio, essa estrutura s\u00f3 contribui para o caos urbano.<\/p>\n\n\n\n<p>E mesmo diante disso tudo, o que se viu foi a implanta\u00e7\u00e3o de micro-\u00f4nibus ve\u00edculos com baixa capacidade que congestionam ainda mais as ruas, sem resolver o problema de origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto se acena com a promessa de gratuidade, o que se esconde \u00e9 o abandono. Um sistema sem renova\u00e7\u00e3o de frota, sem investimentos em mobilidade, sem qualquer vis\u00e3o de futuro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"864\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-19-864x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-264\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-19-864x1024.png 864w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-19-253x300.png 253w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-19-768x911.png 768w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-19.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 864px) 100vw, 864px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A proposta da tarifa zero, que nasceu nos anos 90 pelas m\u00e3os do engenheiro L\u00facio Gregori, inspirado na coleta de lixo urbano, pode at\u00e9 ter boas inten\u00e7\u00f5es. Mas transporte n\u00e3o \u00e9 lixo. N\u00e3o pode simplesmente ser recolhido. Ele exige infraestrutura, manuten\u00e7\u00e3o constante, frota moderna e, sobretudo, seguran\u00e7a. E isso custa caro. Custa planejamento, responsabilidade e fiscaliza\u00e7\u00e3o. Coisas que Juiz de Fora, hoje, n\u00e3o tem garantido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que resta ent\u00e3o?<\/h2>\n\n\n\n<p>Coragem pol\u00edtica. Planejamento t\u00e9cnico. Investimento real. N\u00e3o em gratuidade ilus\u00f3ria, mas em qualidade. Em abrir licita\u00e7\u00f5es para novas empresas do setor, em modernizar a frota com \u00f4nibus el\u00e9tricos e articulados. Em revitalizar vias, corredores, asfalto. Em sonhar grande com linhas f\u00e9rreas, integra\u00e7\u00e3o modal, infraestrutura de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira revolu\u00e7\u00e3o no transporte n\u00e3o \u00e9 prometer tarifa zero, \u00e9 garantir que o juiz-forano chegue vivo, no hor\u00e1rio, e com dignidade ao seu destino.<\/p>\n\n\n\n<p>Gratuidade sem transpar\u00eancia, sem qualidade, sem estrutura \u00e9 uma ilus\u00e3o perigosa. E toda ilus\u00e3o, quando se quebra, cobra um pre\u00e7o alto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ideia de tarifa zero no transporte coletivo soa, \u00e0 primeira vista, como uma utopia moderna. Um gesto de inclus\u00e3o, um avan\u00e7o social. Mas como toda utopia imposta de cima para baixo, ela carrega consigo mais perguntas do que respostas, e mais riscos do que solu\u00e7\u00f5es. Quem vai custear o servi\u00e7o? 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