{"id":40,"date":"2025-12-29T22:54:00","date_gmt":"2025-12-29T22:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=40"},"modified":"2026-01-28T22:56:54","modified_gmt":"2026-01-28T22:56:54","slug":"o-ano-em-que-o-brasil-normalizou-o-absurdo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/o-ano-em-que-o-brasil-normalizou-o-absurdo\/","title":{"rendered":"O ano em que o Brasil normalizou o\u00a0absurdo"},"content":{"rendered":"\n<p>Se algu\u00e9m dissesse, anos atr\u00e1s, que 2025 seria lembrado como um grande circo pol\u00edtico, talvez soasse como exagero ret\u00f3rico. Hoje, soa apenas como constata\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que, em meio ao espet\u00e1culo grotesco, o p\u00fablico n\u00e3o apenas permaneceu sentado. Aplaudiu, escolheu lados e passou a brigar entre si enquanto o picadeiro pegava fogo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil entrou em 2025 com problemas estruturais graves. Economia fragilizada, inseguran\u00e7a jur\u00eddica, institui\u00e7\u00f5es tensionadas e uma crise profunda de confian\u00e7a. Saiu do ano com os mesmos problemas, agora agravados por algo ainda mais corrosivo: a completa banaliza\u00e7\u00e3o do absurdo pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/mgmbl.wordpress.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/img_3760.jpg?w=1024\" alt=\"\" class=\"wp-image-1503\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>O esc\u00e2ndalo envolvendo o INSS \u00e9 um exemplo emblem\u00e1tico. Irregularidades bilion\u00e1rias, den\u00fancias de m\u00e1 gest\u00e3o, falhas graves de controle e preju\u00edzos diretos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel foram expostos sem que isso provocasse como\u00e7\u00e3o proporcional. O debate rapidamente deixou de ser sobre responsabilidade administrativa e passou a ser sobre defesa ou ataque pol\u00edtico. Para muitos, n\u00e3o importava o rombo ou suas consequ\u00eancias, mas apenas quem seria beneficiado ou prejudicado na disputa ideol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo padr\u00e3o se repetiu diante dos gastos do Governo Federal mantidos sob sigilo. Recursos p\u00fablicos utilizados sem transpar\u00eancia, em desacordo com o discurso de abertura e controle, deveriam ser motivo de indigna\u00e7\u00e3o ampla e transversal. No entanto, o tema foi relativizado, minimizado ou simplesmente ignorado por aqueles que antes tratavam a transpar\u00eancia como valor inegoci\u00e1vel. O princ\u00edpio mudou conforme o governante, n\u00e3o conforme o fato.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/mgmbl.wordpress.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/img_3761.jpg?w=768\" alt=\"\" class=\"wp-image-1504\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Outro epis\u00f3dio revelador foi o esc\u00e2ndalo do Banco Master. Rela\u00e7\u00f5es nebulosas entre poder pol\u00edtico e institui\u00e7\u00f5es financeiras, decis\u00f5es question\u00e1veis e impactos potenciais no sistema econ\u00f4mico foram tratados com naturalidade assustadora. Em vez de cobran\u00e7as firmes por explica\u00e7\u00f5es claras, o que se viu foi a tentativa de enquadrar o caso em narrativas convenientes, diluindo sua gravidade e desviando o foco daquilo que realmente importava: a responsabilidade de quem decide e administra.<\/p>\n\n\n\n<p>Esc\u00e2ndalos se sucederam, decis\u00f5es contradit\u00f3rias se acumularam, e vers\u00f5es oficiais mudaram sem qualquer constrangimento. Ainda assim, nada disso gerou a indigna\u00e7\u00e3o proporcional que se esperaria de uma sociedade minimamente vigilante.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o porque faltaram motivos, mas porque faltou disposi\u00e7\u00e3o para pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>A popula\u00e7\u00e3o, em larga medida, deixou de reagir com base em princ\u00edpios para reagir com base em pertencimento. Quando um erro parte do pr\u00f3prio campo ideol\u00f3gico, surgem justificativas t\u00e9cnicas, contextuais ou morais. Quando o mesmo erro parte do campo oposto, vira prova definitiva de corrup\u00e7\u00e3o, autoritarismo ou incompet\u00eancia. O crit\u00e9rio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais \u201cisso \u00e9 certo?\u201d ou \u201cisso \u00e9 aceit\u00e1vel?\u201d, mas sim \u201cquem fez?\u201d e \u201ccontra quem foi?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/mgmbl.wordpress.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/img_3763.jpg?w=1024\" alt=\"\" class=\"wp-image-1505\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Em 2025, discursos vazios substitu\u00edram pol\u00edticas p\u00fablicas. Slogans tomaram o lugar de dados. Propostas complexas foram reduzidas a frases de efeito enquanto problemas concretos, como infla\u00e7\u00e3o, inseguran\u00e7a e servi\u00e7os p\u00fablicos prec\u00e1rios, seguiam sem solu\u00e7\u00e3o. O emocional se sobrep\u00f4s \u00e0 raz\u00e3o, e o debate p\u00fablico virou um exerc\u00edcio de indigna\u00e7\u00e3o seletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica passou a ser vista como trai\u00e7\u00e3o, e a defesa cega como virtude. Questionar incoer\u00eancias virou sin\u00f4nimo de fortalecer o inimigo. Nesse ambiente, o cidad\u00e3o m\u00e9dio n\u00e3o se sente representado, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se sente respons\u00e1vel. Reclama nas redes, compartilha ironias, escolhe um lado e segue a vida como se pol\u00edtica fosse apenas entretenimento ruim.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o aspecto mais preocupante n\u00e3o seja o comportamento dos atores pol\u00edticos, historicamente previs\u00edvel, mas a anestesia coletiva. O Brasil n\u00e3o est\u00e1 apenas polarizado. Est\u00e1 exausto. E o cansa\u00e7o tem produzido apatia seletiva. Indigna-se quando conv\u00e9m, silencia quando incomoda, racionaliza quando o absurdo vem do lado considerado correto.<\/p>\n\n\n\n<p>O circo s\u00f3 continua porque h\u00e1 plateia. Enquanto o \u00f3dio ideol\u00f3gico for mais mobilizador do que a consci\u00eancia c\u00edvica, enquanto a identidade pol\u00edtica falar mais alto que valores universais como responsabilidade, transpar\u00eancia e justi\u00e7a, 2025 n\u00e3o ser\u00e1 um ponto fora da curva. Ser\u00e1 apenas mais um ensaio geral para o pr\u00f3ximo espet\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/mgmbl.wordpress.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/f1a9e401-ecdb-4a38-bfcd-813b7d01df5c.png?w=683\" alt=\"\" class=\"wp-image-1506\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>A pergunta que fica n\u00e3o \u00e9 sobre quem est\u00e1 no poder, mas sobre quem ainda est\u00e1 disposto a exigir algo melhor. Porque um pa\u00eds que se acostuma ao rid\u00edculo deixa de perceber quando o rid\u00edculo se torna regra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se algu\u00e9m dissesse, anos atr\u00e1s, que 2025 seria lembrado como um grande circo pol\u00edtico, talvez soasse como exagero ret\u00f3rico. Hoje, soa apenas como constata\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que, em meio ao espet\u00e1culo grotesco, o p\u00fablico n\u00e3o apenas permaneceu sentado. Aplaudiu, escolheu lados e passou a brigar entre si enquanto o picadeiro pegava fogo. 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