{"id":421,"date":"2024-11-02T21:25:00","date_gmt":"2024-11-02T21:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=421"},"modified":"2026-04-25T21:27:06","modified_gmt":"2026-04-25T21:27:06","slug":"jk-o-simbolo-do-regresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/jk-o-simbolo-do-regresso\/","title":{"rendered":"JK: O s\u00edmbolo do\u00a0regresso"},"content":{"rendered":"\n<p>Seria bom dizer que apenas figuras que marcaram o Brasil positivamente nasceram em territ\u00f3rio mineiro, mas infelizmente n\u00e3o. Bras\u00edlia, a grande obra-prima do \u201cprogresso\u201d, foi constru\u00edda no meio do nada, cercada por um imenso vazio, tanto f\u00edsico quanto simb\u00f3lico. Juscelino Kubitschek, o mineiro audacioso, decidiu realizar o sonho de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio e fincar a capital bem no cora\u00e7\u00e3o do Brasil. Mas, sinceramente, parecia mais uma piada mal contada: levar o centro do poder para um lugar onde nem os tamandu\u00e1s achavam gra\u00e7a. Ali nasceu a forma moderna de desviar dinheiro p\u00fablico, produzir leis e t\u00e9cnicas avan\u00e7adas de como taxar o cidad\u00e3o. Diante de todo aquele requinte ecoaria o jarg\u00e3o, \u201croubou, mas fez\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Bras\u00edlia, constru\u00edda em um tempo de otimismo pol\u00edtico e fervor desenvolvimentista, acabou se tornando um s\u00edmbolo de contradi\u00e7\u00e3o, onde o progresso anunciado se perdeu em um deserto de desconex\u00e3o social e geogr\u00e1fica. A ideia de erguer a capital brasileira no cora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, distante dos centros econ\u00f4micos e culturais mais vibrantes, acabou por consolidar um espa\u00e7o de poder isolado, que, ao inv\u00e9s de integrar, pareceu refor\u00e7ar a separa\u00e7\u00e3o entre o povo e as elites pol\u00edticas. \u00c9 ir\u00f4nico pensar que Bras\u00edlia, projetada para ser uma cidade moderna e representativa do futuro do Brasil, acabou se tornando um lugar de pr\u00e1ticas arcaicas: a corrup\u00e7\u00e3o, o desperd\u00edcio de recursos p\u00fablicos e a aliena\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"984\" height=\"528\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-7-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-422\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-7-3.png 984w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-7-3-300x161.png 300w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-7-3-768x412.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Imagine s\u00f3 se, ao inv\u00e9s das linhas modernistas e das formas geom\u00e9tricas aleat\u00f3rias, tiv\u00e9ssemos uma arquitetura cl\u00e1ssica, com colunas e c\u00fapulas harmoniosas. Pelo menos na arquitetura cl\u00e1ssica, at\u00e9 os desvios de verba teriam um toque de eleg\u00e2ncia! A escolha por um estilo de arquitetura modernista, com suas formas geom\u00e9tricas ousadas e despojadas de ornamentos, acaba refletindo mais um desejo de ruptura do que de continuidade. Em vez de construir algo atemporal, Bras\u00edlia se tornou uma rel\u00edquia do passado, datada, uma obra-prima de um futurismo que envelheceu mal. Enquanto os ideais de modernidade perdem sua relev\u00e2ncia, a austeridade e a solidez da arquitetura cl\u00e1ssica, baseada em propor\u00e7\u00e3o e harmonia, ainda se mant\u00e9m como um s\u00edmbolo de estabilidade. Esse tipo de arquitetura teria ressoado mais profundamente com o Brasil, um pa\u00eds onde as tradi\u00e7\u00f5es culturais, por mais diversas que sejam, possuem uma base enraizada em uma hist\u00f3ria coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>E enquanto se falava em progresso, o que se construiu, de fato, foi um resort de primeira classe para pol\u00edticos. E n\u00e3o qualquer resort, mas um com esquemas \u201call inclusive\u201d: corrup\u00e7\u00e3o, conchavos e \u201cdesvios or\u00e7ament\u00e1rios\u201d \u00e0 vontade. Enquanto isso, o povo, ah, o povo\u2026 ficava a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, literalmente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"692\" height=\"550\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-8-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-423\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-8-2.png 692w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-8-2-300x238.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 692px) 100vw, 692px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A ideia de \u201cdiminuir as dist\u00e2ncias\u201d ao criar Bras\u00edlia \u00e9 um dos maiores paradoxos da hist\u00f3ria nacional. Queriam aproximar o poder das fronteiras do pa\u00eds, mas acabaram isolando-o no planalto, longe dos grandes centros e, claro, da realidade. Diminuir as dist\u00e2ncias? Me diz a\u00ed: quando foi a \u00faltima vez que voc\u00ea viu um pol\u00edtico saindo do conforto do Planalto para visitar o sert\u00e3o nordestino, o vale do Jequitinhonha, ou o munic\u00edpio de Altamira, para \u201cintegrar o Brasil\u201d? Pois \u00e9, podemos at\u00e9 dizer que Beto Jamaica tinha raz\u00e3o \u201cEssa \u00e9 a mistura de Brasil com o Egito\u201d, afinal os \u201cintegradores\u201d ficaram bem acomodados nas suas pir\u00e2mides de concreto, ou talvez mais parecido com as esfinges do Egito, observando de longe e em sil\u00eancio, como se guardassem um segredo milenar \u2013 o da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim das contas, Bras\u00edlia, que nasceu com promessas de \u201c50 anos em 5\u201d, acabou entregando \u201c50 anos de d\u00edvida\u201d. Talvez JK quisesse mesmo imitar o Egito, criando uma dinastia de fara\u00f3s tupiniquins, acumulando riqueza enquanto o resto da popula\u00e7\u00e3o trabalhava para sustentar essa \u201cgrande obra\u201d. Se tivesse optado por uma arquitetura cl\u00e1ssica, ao menos ter\u00edamos um cen\u00e1rio mais coerente para essa trag\u00e9dia c\u00f4mica: algo como um grande teatro romano. E, por falar em teatro, n\u00e3o faltaria entretenimento para os cidad\u00e3os, j\u00e1 que Bras\u00edlia continua sendo palco de grandes espet\u00e1culos \u2013 as sess\u00f5es no Congresso, as investiga\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o e, claro, os discursos inflamados. Faltaria s\u00f3 a pipoca para o show ser completo.<\/p>\n\n\n\n<p>No final das contas, Bras\u00edlia se tornou mais um exemplo de como o \u201cprogresso\u201d pode ser distorcido, servindo de desculpa para criar um playground de poder e vaidade pol\u00edtica. Quem poderia imaginar que, no meio do cerrado, do encontro entre a modernidade artificial e a tradi\u00e7\u00e3o esquecida, surgiriam dois postes, uma cuba e uma bacia, compondo o estranho cen\u00e1rio que hoje conhecemos como Bras\u00edlia? N\u00e3o uma capital dos sonhos, mas um verdadeiro \u201cclube do bolinha\u201d das elites pol\u00edticas, isolada do Brasil real.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"200\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-9-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-424\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>E Minas, que tanto tem para se orgulhar de sua hist\u00f3ria, infelizmente, de suas figuras ilustres, tem o que lamentar. N\u00e3o pela ousadia de Juscelino, mas pela oportunidade perdida de fazer algo que representasse, de fato, a alma do povo mineiro e, por extens\u00e3o, do povo brasileiro. Ao inv\u00e9s de erguer uma cidade que capturasse a ess\u00eancia da cultura nacional \u2013 acolhedora, criativa, ligada \u00e0s suas ra\u00edzes \u2013 o que tivemos foi uma constru\u00e7\u00e3o fria e distante. Talvez, se Juscelino tivesse buscado inspira\u00e7\u00e3o na simplicidade mineira, ou na rica diversidade brasileira, Bras\u00edlia poderia ter sido um s\u00edmbolo de uni\u00e3o e identidade, e n\u00e3o apenas um monumento ao poder e \u00e0 desconex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Bibliografia:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasilparalelo.com.br\/colunas\/brasilia\">https:\/\/www.brasilparalelo.com.br\/colunas\/brasilia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/mundoeducacao.uol.com.br\/historiadobrasil\/construcao-de-brasilia.htm#:~:text=A%20constru%C3%A7%C3%A3o%20de%20Bras%C3%ADlia%20foi,o%20come%C3%A7o%20da%20rep%C3%BAblica%20brasileira.\">https:\/\/mundoeducacao.uol.com.br\/historiadobrasil\/construcao-de-brasilia.htm#:~:text=A%20constru%C3%A7%C3%A3o%20de%20Bras%C3%ADlia%20foi,o%20come%C3%A7o%20da%20rep%C3%BAblica%20brasileira.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/revistaoe.com.br\/a-historia-da-construcao-de-brasilia\">https:\/\/revistaoe.com.br\/a-historia-da-construcao-de-brasilia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seria bom dizer que apenas figuras que marcaram o Brasil positivamente nasceram em territ\u00f3rio mineiro, mas infelizmente n\u00e3o. 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