{"id":77,"date":"2025-12-04T12:00:00","date_gmt":"2025-12-04T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=77"},"modified":"2026-01-31T17:49:05","modified_gmt":"2026-01-31T17:49:05","slug":"capitulo-23-da-republica-que-me-pariu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/capitulo-23-da-republica-que-me-pariu\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 23 \u2013 Da Rep\u00fablica que me Pariu"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o disse antes, mas agora gostaria de contar-te, caro leitor, como fui batizado Chamaram-me Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Nome curto, redondo, euf\u00f4nico, parecia promissor. Dava bons slogans, cabia em hino e cabia em moeda. Mas, por dentro, havia rachaduras.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui batizado Rep\u00fablica antes mesmo de aprender a respirar como tal. Ato solene, com banda, proclama\u00e7\u00e3o e bigode.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas faltava-me o povo, e sobravam-me padrinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizem que a Rep\u00fablica me libertou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas lembro bem: apenas mudou a mob\u00edlia. Saiu o trono, entrou a farda.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu a coroa, entrou o timbre seco do decreto.<\/p>\n\n\n\n<p>A plebe aplaudiu, mas ningu\u00e9m lhe perguntou nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nasci no alto, na caneta, longe da rua.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha certid\u00e3o n\u00e3o veio do povo, veio de uma quartelada.<\/p>\n\n\n\n<p>Choraram \u201cOrdem e Progresso\u201d sobre meu ber\u00e7o, mas esqueceram de me ensinar a distinguir uma da outra.<\/p>\n\n\n\n<p>E desde ent\u00e3o, tenho vivido no intervalo entre o grito e o suspiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A Rep\u00fablica me prometeu igualdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas entregou-me privil\u00e9gios empacotados em discursos solenes.<\/p>\n\n\n\n<p>Trocou a \ufb01gura do rei por uma multid\u00e3o de chefes, cada um com sua pr\u00f3pria coroa invis\u00edvel. N\u00e3o nego meu passado, o que me assombra \u00e9 o presente disfar\u00e7ado de futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo cedo, fui apresentado aos ritos: elei\u00e7\u00f5es, palanques, hinos, siglas, slogans. Mas por tr\u00e1s das cortinas, vi que os cord\u00e9is eram puxados pelas mesmas m\u00e3os. E o verme\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, o verme\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse novo regime, ele ganhou cargos.<\/p>\n\n\n\n<p>Instalou-se nos gabinetes, nos contratos, nas colunas dos jornais. Mudou de terno, aprendeu jarg\u00f5es e passou a frequentar jantares. Tornou-se patriota e patriota muito eloquente.<\/p>\n\n\n\n<p>Vieram os salvadores de quatro em quatro anos. Cada um mais messi\u00e2nico que o anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Prometiam refundar, reconstruir, resgatar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esqueciam que para reconstruir, \u00e9 preciso antes parar de demolir.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos olhos do mundo, tornei-me ex\u00f3tico:<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds do amanh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds do jeitinho.<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds da esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu, por dentro, j\u00e1 pressentia o colapso.<\/p>\n\n\n\n<p>E o colapso, leitor\u2026 esse n\u00e3o veio de fora. Veio de dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Veio como se v\u00eam os segredos antigos:<\/p>\n\n\n\n<p>silenciosamente, devorando-me pelas beiradas. sentado a mesa em meio a um brinde,<\/p>\n\n\n\n<p>e desde ent\u00e3o, venho sendo bebido at\u00e9 a \u00faltima gota, e foi assim que nasci.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o disse antes, mas agora gostaria de contar-te, caro leitor, como fui batizado Chamaram-me Brasil. Nome curto, redondo, euf\u00f4nico, parecia promissor. Dava bons slogans, cabia em hino e cabia em moeda. Mas, por dentro, havia rachaduras. Fui batizado Rep\u00fablica antes mesmo de aprender a respirar como tal. Ato solene, com banda, proclama\u00e7\u00e3o e bigode. 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