{"id":97,"date":"2025-11-24T12:00:00","date_gmt":"2025-11-24T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/?p=97"},"modified":"2026-03-02T23:27:02","modified_gmt":"2026-03-02T23:27:02","slug":"memorias-de-bras-capitulo-22","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/memorias-de-bras-capitulo-22\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de Br\u00e1s: Cap\u00edtulo\u00a022"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cap\u00edtulo 22 \u2013 &nbsp;Do Opressor<\/h2>\n\n\n\n<p>Foi numa dessas tardes eternas do al\u00e9m, em que o tempo se espregui\u00e7a como funcion\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<p>p\u00fablico em reparti\u00e7\u00e3o sem chefe, que reencontrei Paulo Freire. Estava sentado sob uma<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/create-a-highly-detailed-high-resolution-image-depicting-paulo-freire-sitting-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-98\" srcset=\"https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/create-a-highly-detailed-high-resolution-image-depicting-paulo-freire-sitting-1.png 1024w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/create-a-highly-detailed-high-resolution-image-depicting-paulo-freire-sitting-1-300x225.png 300w, https:\/\/mblmg.org\/escribas\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/create-a-highly-detailed-high-resolution-image-depicting-paulo-freire-sitting-1-768x576.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>mangueira metaf\u00edsica, lendo um velho exemplar de Pedagogia do Oprimido, com o mesmo fervor<\/p>\n\n\n\n<p>com que outrora se lia a B\u00edblia em noites de apag\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ora, Brasil! \u2014 exclamou ele, com aquele sorriso de quem ainda acredita. \u2014 Veio para<\/p>\n\n\n\n<p>aprender ou para lamentar?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para recordar, Paulo. Recordar e, quem sabe, rir um pouco. Porque chorar, j\u00e1 n\u00e3o me resta<\/p>\n\n\n\n<p>l\u00e1grima \u2014 respondi, ajeitando minha mortalha com dignidade de ex-presidente deposto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele me ofereceu um banco de nuvem. Sentei-me com o peso de cinco s\u00e9culos nos ombros e um<\/p>\n\n\n\n<p>boletim do ENEM no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sabia que sua alfabetiza\u00e7\u00e3o libertadora deu certo demais? Ensinaram a ler. Agora leem at\u00e9<\/p>\n\n\n\n<p>r\u00f3tulo de shampoo\u2026 mas n\u00e3o compreendem nem bula de aspirina. Antes, era n\u00e3o saber juntar<\/p>\n\n\n\n<p>as letras; hoje, \u00e9 saber juntar e n\u00e3o entender o que se juntou.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo franziu o cenho, como quem perde o gosto do caf\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato de amor, Brasil. Um ato de coragem\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E de ironia, Paulo! Ironia! Voc\u00ea, com suas ideias de di\u00e1logo, foi interpretado por burocratas<\/p>\n\n\n\n<p>que mal sabem conjugar o verbo \u201cinterpretar\u201d. Transformaram \u201censinar com o outro\u201d em \u201cn\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>ensinar nada para n\u00e3o constranger o outro\u201d. E veja s\u00f3! Para n\u00e3o oprimir o oprimido, preferiram<\/p>\n\n\n\n<p>oprimir o conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele suspirou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas democratizamos o ensino\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Democratizamos, sim. Democratizamos o vazio. Entregamos diplomas com o entusiasmo de<\/p>\n\n\n\n<p>quem distribui pipoca em festa de crian\u00e7a, mas sem perguntar se o milho estourou. O sujeito se<\/p>\n\n\n\n<p>forma em Letras e n\u00e3o consegue ler Guimar\u00e3es Rosa sem se perder no primeiro \u201cnonada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Fitei-o com compaix\u00e3o e um qu\u00ea de sarcasmo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Dantes, Paulo, os analfabetos n\u00e3o sabiam ler. Agora, leem, mas n\u00e3o sabem pensar. V\u00eaem<\/p>\n\n\n\n<p>uma frase com sujeito oculto e pensam que \u00e9 teoria da conspira\u00e7\u00e3o. Trocam o sentido das<\/p>\n\n\n\n<p>palavras como quem troca o nome do candidato nas urnas.<\/p>\n\n\n\n<p>E, como quem cita com eleg\u00e2ncia, recitei-me:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAo vencedor, as batatas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem, Paulo, aos nossos jovens, nem isso. Entregamos as cascas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele abaixou os olhos. A mangueira, solid\u00e1ria, deixou cair uma folha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Transformaram consci\u00eancia cr\u00edtica em opini\u00e3o sem fundamento \u2014 disse ele, quase num<\/p>\n\n\n\n<p>sussurro. \u2014 Confundem liberdade com ignor\u00e2ncia insolente. At\u00e9 a d\u00favida virou ofensa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E pensar que voc\u00ea queria a educa\u00e7\u00e3o como pr\u00e1tica da liberdade! Hoje ela \u00e9 pr\u00e1tica do lacre. O<\/p>\n\n\n\n<p>aluno grita, cancela, debate em caixa alta\u2026 mas n\u00e3o interpreta um par\u00e1grafo de Lima Barreto.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo cerrou os olhos. Pela primeira vez, pareceu cansado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ainda h\u00e1 esperan\u00e7a, Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esperan\u00e7a \u00e9 o que mais se imprime. Est\u00e1 nas propagandas, nos slogans ministeriais e nos<\/p>\n\n\n\n<p>desfiles c\u00edvicos. Mas a realidade? Ah, a realidade \u00e9 uma reda\u00e7\u00e3o com nota 900 que come\u00e7a com<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA quest\u00e3o da educass\u00e3o \u00e9 muito enrrolada pois o jovem n\u00e3o quer estuda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantamo-nos. Paulo guardou o livro, n\u00e3o sem antes marc\u00e1-lo com um graveto de nuvem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Talvez tenhamos sido lidos com pressa, Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ou por quem nunca leu nada al\u00e9m da pr\u00f3pria timeline \u2014 repliquei, com um riso melanc\u00f3lico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas v\u00e1, Paulo. Ainda h\u00e1 professores honestos. Poucos, sim, mas h\u00e1. Resistindo como \u00faltima<\/p>\n\n\n\n<p>vela acesa em apag\u00e3o pedag\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele foi. Sumindo na n\u00e9voa branda do al\u00e9m, com o mesmo ar sonhador de quem acredita que<\/p>\n\n\n\n<p>ensinar ainda vale a pena, mesmo que o aluno te responda com emojis.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei ali, ruminando a lembran\u00e7a. E pensei, com o mesmo sarcasmo com que enterrei minha<\/p>\n\n\n\n<p>p\u00e1tria:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO maior dos analfabetismos \u00e9 o que n\u00e3o sabe ouvir. Porque quem n\u00e3o ouve, tampouco<\/p>\n\n\n\n<p>entende. E quem n\u00e3o entende, vota mal, pensa pouco e escreve pior.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E com isso, fechei mais um cap\u00edtulo da minha mem\u00f3ria morta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cap\u00edtulo 22 \u2013 &nbsp;Do Opressor Foi numa dessas tardes eternas do al\u00e9m, em que o tempo se espregui\u00e7a como funcion\u00e1rio p\u00fablico em reparti\u00e7\u00e3o sem chefe, que reencontrei Paulo Freire. 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