Capítulo 20 – Minha mão

São Paulo, minha mão.

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Não me recebeu, me absorveu.

Entrei e, sem perceber, já estava andando.

As ruas me puxavam como esteiras rolantes.

Os prédios me vigiavam como câmeras.

A pressa era o idioma. E o fuso horário parecia um punho cerrado.

Tudo ali cheirava a suor, fumaça e guarda-chuva molhado.

São Paulo não se apresenta. São Paulo acontece.

Era a mão do Brasil, calejada, multitarefa, nervosa.

A mão que produziu tanto, que acabou esquecendo o que era tocar.

— Brasil, tens hora marcada?

— São Paulo, podes parar um segundo?

— Parar? — riu, sem humor.

— Não conheço esse verbo. Aqui, quem para, perde.

São Paulo falava como uma planilha que ganhou consciência.

Era feita de concreto, cafeína e concorrência.

Tinha a firmeza de quem não vacila e a rigidez de quem não chora.

— Fui teu milagre econômico — disse, entre buzinas.

— Tua locomotiva. Mas ninguém me perguntou se eu queria ser trilho.

— E querias?

— Eu queria ser humano.

— Mas virei horário de pico.

— Virei aplicativo de entrega, reunião no Zoom, meta trimestral.

— Virei produtividade.

São Paulo parecia um executivo em colapso emocional.

Alguém que nunca teve infância, só um currículo.

Nele ficava o relógio do país.

Mas ele jurava que controlava o tempo do mundo.

— E a cultura?

— Tá em cartaz. Tem ingressos online. Arte com patrocínio e coquetel de abertura.

— Mas não me pede alma: vendi junto com a última fábrica de ternos.

— E o que resta?

— Gente cansada. Mas funcional.

— Corações marcando ponto.

— Mãos que constroem sem saber o que estão levantando.

Respirei fundo. São Paulo também cheirava a ansiedade que não cabe no peito.

— E o que queres de mim?

— Quero que tu falhes.

— Falhar? Por quê?

— Porque só assim eu saberei descansar.

— Enquanto tu tentar funcionar, eu vou continuar girando, moendo, entregando.

— Sou tua mão, Brasil. Mas até as mãos tremem quando não dormem.

E então sumiu.

Evaporou entre viadutos, buzinas e agendas lotadas.

Deixou para trás apenas uma notificação não lida no meu peito,

um lembrete de que até o que constrói, também se quebra.