O imaginário não é um álbum estático de lembranças, é um organismo vivo. Nele circulam ideias, símbolos, memórias e experiências que dão forma à nossa visão de mundo. É a lente invisível pela qual interpretamos a realidade, a fonte de nossas aspirações e do sentido que damos às coisas.

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Mas o nosso imaginário coletivo, outrora robusto e plural, hoje parece frágil e uniformizado. Não se alimenta mais de grandes narrativas históricas ou de heróis atemporais, mas de acontecimentos passageiros, moldados e embalados por redes sociais e veículos de comunicação. E, nesse cenário empobrecido, a busca por um herói nacional tornou-se quase compulsiva.

Basta um instante de brilho e, de repente, alguém é erguido ao panteão simbólico: vimos isso com Richarlison, que, após um gol memorável, foi alçado a uma figura quase política; agora, com Felca, cuja denúncia importantíssima e relevante despertou tentativas de transformá-lo no novo salvador da pátria. O mesmo se repete com líderes políticos como Lula ou Bolsonaro, figuras cujos adeptos e detratores os tratam como se fossem encarnações de um ideal coletivo. A pergunta inevitável é: por que precisamos, tão rápido e tão desesperadamente, criar heróis?

A resposta está na mutilação da nossa memória histórica. As escolas, que deveriam ser guardiãs dessa herança, muitas vezes silenciam ou distorcem o passado. Isso não é um acidente. Edmund Burke já alertava: “Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.” Retirar de um povo o conhecimento de suas raízes é privá-lo de identidade e, portanto, de força.

Talvez porque, no fundo, vivamos uma carência simbólica. Nosso imaginário histórico foi mutilado. As escolas, que poderiam preservar e transmitir heróis coletivos, muitas vezes os silenciam ou distorcem, até que reste apenas um vazio. E, diante do vazio, buscamos qualquer rosto que pareça capaz de preencher o lugar.

Essa supressão não é aleatória. Edmund Burke advertiu: “Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.” A história de um povo é inseparável de sua identidade, de seus valores e tradições. Ao desconhecê-la, perde-se a referência do que se é, dissolvendo o senso de pertencimento e a capacidade de se unir em torno de causas comuns. Conhecer a própria trajetória não é apenas questão de memória, mas de lucidez: permite compreender o presente, perceber as origens das estruturas sociais e políticas e reconhecer os erros que não devem ser repetidos.

Quando a história é abafada, surgem dois efeitos perversos. Primeiro, a população perde seu eixo moral e cultural, ficando órfã de exemplos e narrativas que poderiam inspirar e orientar. Segundo, cria-se um terreno fértil para manipulação: sem memória coletiva, torna-se mais fácil reescrever o passado, distorcer o presente e vender futuros ilusórios. Nesse sentido, sufocar heróis e eventos históricos não é apenas descaso, é estratégia de poder, um povo órfão de referências fortes aceita mais facilmente salvadores de ocasião. E isso interessa a quem prefere cidadãos desorientados e dependentes.

No passado, os heróis não eram fabricados por hashtags; eram forjados no entrechoque entre destino e ação. Deodoro da Fonseca, com sua imagem de velho militar deposto de glórias monárquicas, ainda assim encarnava o ato dramático de derrubar um império. Floriano Peixoto, “o Marechal de Ferro”, ganhou estatura ao sufocar revoltas e segurar a República nascente, ainda que dividida entre forças militares e civis. Frei Caneca, mártir da Confederação do Equador, possuía coragem e convicção.

E então houve Tiradentes, aquele que reuniu todos os elementos para ser eternizado: republicanismo precoce, origem em região central do poder, e sobretudo uma morte que permitiu associá-lo à figura de Cristo, conferindo-lhe a aura perfeita para o imaginário da República.

Houve ainda outros heróis possíveis, como os indígenas idealizados pelo indianismo romântico, na ausência de cavaleiros medievais, o Brasil elevou o nativo à condição mítica. Ou a princesa Isabel, libertadora da escravidão. Ou Machado de Assis, cuja pena ergueu a literatura nacional a um patamar universal.

Hoje, porém, nossa cultura histórica é rasa. O que não é silenciado é relativizado; o que não é relativizado é caricaturado. As narrativas que poderiam nos dar coesão são fragmentadas, substituídas por entretenimento vazio ou lutas artificiais criadas para dividir e distrair.

Nosso imaginário está debilitado, e isso não é apenas consequência do descaso. Um povo sem memória é um povo sem bússola, e um povo sem bússola segue qualquer farol, mesmo que o leve ao naufrágio. E talvez, no fundo, essa busca por um herói nacional não seja apenas nostalgia ou esperança, seja um grito silencioso de um povo que perdeu seus espelhos e, sem eles, não sabe mais para onde olhar.