Capítulo 17 — Inimigo II: Burocracia Perpétua
Deitado em meu caixão, comecei a sentir um cheiro estranho de mofo, de papel úmido e café
requentado, olhei para o lado e vi a barra de uma saia encardida, soube que era ela.
Não gritava.
Carimbava.
Chamava-se Burocracia Perpétua e, como quase tudo que é perpétuo neste país, era também
inevitável.
Não nasceu. Foi protocolada.
Desconfio que tenha saído de alguma gaveta ancestral, de onde se reproduz por multiplicação
de vias. Já a encontrei adulta, de olhos fundos e dedos manchados de tinta azul.
Era gorda. Não de carnes, de papéis.
Papéis com timbre, sem timbre, em duplicata, triplicata, com anexo, sem anexo, mas sempre
com exigência.
Tinha um ar respeitável, desses que só os inúteis muito antigos conseguem sustentar.
Não andava: tramitava.
Não olhava: rubricava.
Não julgava: devolvia por ausência de carimbo.
Criaram-na para pôr ordem no caos. E conseguiu.
Hoje temos um caos ordenadíssimo, em pastas numeradas e prazos eternamente suspensos.
Era tida por imparcial.

Mas isso, confesso, sempre me pareceu uma daquelas piadas administrativas que só fazem rir
a quem assina despachos.
Tratava os poderosos com uma leveza quase poética.
Já os desesperados… ah, esses, recebiam-lhe o peso do regimento interno.
Sua crueldade era das mais discretas e, por isso mesmo, eficaz.
Não feria: adiava.
Não negava: solicitava outra cópia.
Não matava: deixava morrer.
Recordo, com certo amargor, o dia em que um dos meus filhos, combalido de urgência,
suplicou-lhe assistência.
Ela, sem alterar o tom, respondeu:
— “Falta o xerox autenticado.”
Note o leitor: não bastava o xerox. Era preciso que estivesse autenticado.
Preferencialmente com firma reconhecida em cartório, e cópia do RG do tabelião.
Governos caíam. Ministérios trocavam de nome. A constituição se reformava como quem troca
de paletó.
Mas ela…
Ela permanecia.
Com seu carimbo na mão e um regulamento de 1845 na bolsa.
No fim da vida, já entrevado e sem ilusões, tentei escapar-lhe.
Ela sorriu, complacente e me pediu:
— “Comprovante de residência. Por favor.”
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