Belo Horizonte foi às urnas em outubro de 2024, e a decisão final, ficou entre Bruno Engler (PL), representante do bolsonarismo na cidade, e Fuad Noman (PSD), atual prefeito que conta com o apoio do centrão. Com isso, os eleitores enfrentaram a difícil tarefa de escolher entre duas opções que, em essência, falham em oferecer propostas claras e coerentes para lidar com os principais problemas de Belo Horizonte. Entre as questões mais críticas estão a segurança pública, mobilidade urbana, e o transporte público, mas o que se vê até o momento são promessas vagas, que carecem de profundidade e realismo. As campanhas arrastaram com a falta de clareza sobre como ambos os candidatos enfrentar os desafios mais urgentes da cidade.

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Bruno Engler (PL): Populismo e Generalidades

Bruno Engler, deputado estadual por Minas Gerais e uma figura proeminente dentro do movimento bolsonarista, tentou capitalizar seu apelo popular com propostas de impacto imediato, mas com pouca profundidade ou viabilidade. Sua principal promessa de campanha girava em torno da segurança pública, onde ele propõe aumentar o efetivo da Guarda Municipal em 4.000 novos policiais. O custo estimado dessa ampliação é de R$ 80 milhões, uma cifra significativa para um orçamento já pressionado por outras demandas. No entanto, Engler falhou em explicar como obter esses recursos, ou se o orçamento da cidade consegue sustentar um aumento tão expressivo sem comprometer outros setores críticos, como saúde e educação.

A proposta de Bruno Engler para a segurança pública era baseada em um cálculo raso: mais policiais nas ruas resolveriam, por si só, os problemas de violência e criminalidade. Esse é um argumento que agrada ao eleitorado que clama por soluções rápidas, mas que ignora as raízes complexas da questão da segurança, como desigualdade social, falta de oportunidades e o sucateamento das políticas de prevenção. Além disso, o candidato mencionava  a abertura da “caixa-preta” da BHTrans, folclore já conhecido pelo Belorizontino, prometido por Alexandre Kalil e até hoje não realizado.

Outro aspecto preocupante no plano de Bruno Engler era sua proposta de alterações no Plano Diretor de Belo Horizonte. A capital mineira, assim como outras grandes cidades brasileiras, possui um plano diretor que visa nortear o crescimento urbano e a ocupação do solo. No entanto, esse plano não é revisado há anos, o que torna necessário atualizá-lo para enfrentar os novos desafios da cidade. A proposta de Engler, no entanto, possuía um viés preocupante: estava mais focada em em promover uma liberalização que favoreça a especulação imobiliária e a verticalização desordenada, sem levar em consideração os impactos sociais e ambientais dessa escolha.

A verticalização excessiva pode ter consequências graves para a mobilidade urbana, já que a construção de mais edifícios em áreas densamente povoadas, sem a devida ampliação da infraestrutura viária e de transporte público, certamente agravará os já intensos congestionamentos. Bruno Engler parece ignorar esse ponto crucial, ou, no mínimo, não o aborda com a seriedade que merece. Em vez disso, ele focava em medidas paliativas, como liberalizar a instalação de painéis de LED no centro da cidade (tema abordado em outro artigo), uma questão que, convenhamos, está longe de ser prioridade diante dos problemas reais que afetam o dia a dia dos cidadãos.

A falta de clareza no plano de governo de Bruno Engler era notável. Ele apresentava promessas genéricas e omitia detalhes importantes, como de onde viriam os recursos para financiar suas propostas. Além disso, ele não demonstrou qualquer compromisso sério com o diálogo com a sociedade civil e com especialistas para discutir alterações no Plano Diretor, que podem definir o futuro da cidade por décadas. Modificações mal planejadas nesse plano podem gerar um crescimento urbano desordenado, levando a mais congestionamentos, degradação ambiental e piora na qualidade de vida da população.

Fuad Noman (PSD): A Gestão da Estagnação

Por outro lado, Fuad Noman, o atual prefeito de Belo Horizonte, não ofereceu uma alternativa muito mais inspiradora. Alçado ao cargo após a desastrosa tentativa de Alexandre Kalil de se eleger governador de Minas Gerais, Fuad vem sendo criticado por sua falta de iniciativa e liderança à frente da administração da cidade. Um dos problemas mais evidentes de sua gestão é a questão da mobilidade urbana, onde a inércia e a falta de planejamento transformaram Belo Horizonte em um caos diário para quem depende do transporte público.

Fuad Noman assumiu o cargo sem grande entusiasmo, e sua administração reflete esse desinteresse. Durante sua gestão, a cidade enfrentou enchentes recorrentes, como a que inundou a Avenida Atlântida, sem que o prefeito tenha demonstrado qualquer capacidade real de lidar com o problema. A infraestrutura da cidade permanece estagnada, e os poucos projetos anunciados durante sua campanha não se concretizaram. Além disso, os incêndios em áreas ao redor da cidade, como o bairro Castelo, também são sinais da falta de uma política ambiental eficaz. O que se vê é uma administração que não consegue oferecer soluções para os problemas mais urgentes de Belo Horizonte, deixando a população à mercê de crises recorrentes.

A crise dos moradores de rua é outro tema que Fuad Noman parece ignorar. A população em situação de rua em Belo Horizonte vem crescendo de forma alarmante, reflexo da falta de políticas sociais eficazes e de uma economia que não oferece oportunidades para os mais vulneráveis. Fuad não apresenta propostas concretas para enfrentar esse problema, limitando-se a continuar políticas que já se mostraram ineficientes. O que falta à sua gestão é uma visão clara de como transformar a cidade em um lugar mais inclusivo e capaz de oferecer oportunidades a todos os seus habitantes.

Falhas na Mobilidade Urbana: Uma Tragédia Anunciadar

A mobilidade urbana é, sem dúvida, foi um dos pontos mais críticos nas campanhas de ambos os candidatos. Belo Horizonte enfrenta um caos diário nas ruas, com congestionamentos intermináveis e um transporte público que, além de caro, é ineficiente. A falta de um sistema de metrô adequado é uma questão que os moradores da cidade enfrentam há décadas, mas que, inexplicavelmente, continua sendo ignorada pelos governantes.

Bruno Engler, em seu plano de governo, mencionava a necessidade de expandir o metrô, mas ofereceu poucos detalhes sobre como pretendia financiar ou executar esse projeto. Tratava-se de uma promessa vaga, que parece mais uma jogada populista do que um compromisso real com a solução dos problemas de mobilidade da cidade. Fuad Noman, por outro lado, praticamente ignorou a questão do metrô em seu plano de governo. Ele se limitou a prometer melhorias superficiais no transporte público, sem abordar a necessidade urgente de uma infraestrutura mais robusta e capaz de atender à demanda crescente da população.

A verdade é que nenhum dos dois candidatos apresentou propostas concretas e viáveis para resolver os gargalos de transporte em Belo Horizonte. O metrô, que deveria ser o foco de qualquer política de mobilidade urbana séria, permanece a ser tratado como um detalhe secundário, enquanto a população continua sofrendo com ônibus lotados, tarifas exorbitantes e uma rede de transporte que não consegue atender às necessidades mínimas dos cidadãos.

O Futuro de Belo Horizonte: Mais do Mesmo?

A eleição de 2024 em Belo Horizonte representou uma escolha difícil para os eleitores. De um lado, Bruno Engler, um candidato que promete mudanças radicais, mas que não ofereceu qualquer clareza sobre como essas mudanças serão implementadas ou financiadas. Com retórica populista, mas plano de governo está repleto de inconsistências e falta de realismo.

Do outro lado, Fuad Noman, o prefeito que já demonstrou sua incapacidade de lidar com os problemas da cidade. Com gestão é marcada pela estagnação, pela falta de visão e pela incapacidade de enfrentar os desafios mais urgentes de Belo Horizonte. Fuad não ofereceu qualquer perspectiva de mudança real, e sua reeleição significa mais quatro anos de inércia e falta de progresso.

A escolha que os eleitores de Belo Horizonte enfrentaram, não foi uma escolha entre o melhor e o pior, mas entre dois candidatos que, de maneiras diferentes, falharam em oferecer uma solução verdadeira para os problemas da cidade. A segurança pública, a mobilidade urbana, o transporte público e as políticas sociais continuarão sendo desafios enormes. A vitória de Fuad não traz nenhuma inovação ou novas perspectivas, e, talvez, podemos ver este segundo turno como uma derrota, onde nenhum dos candidatos eram efetivamente aptos para o cargo de Prefeito de uma das maiores capitais do país.

No final das contas, a eleição de 2024 parece mais um reflexo da crise política e de liderança que assola o Brasil como um todo. A falta de propostas concretas, a superficialidade dos debates e a ausência de uma visão de longo prazo são sintomas de uma política que privilegia o imediatismo e o populismo em detrimento das soluções reais.