Minas já estava.

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Como uma ideia antiga, como uma memória que nunca foi embora.

Era a cabeça. O cérebro.

Sentado à sombra de uma igreja barroca, esculpida não só em pedra, mas em silêncio e oração,

olhava o chão como quem escuta o passado pisando descalço.

Minas não entra. Minas paira.

Minas é pausa. É entrelinha.

Falou baixo, como se não falasse pra mim, mas pra eternidade:

— Brasil…

— Senta. Aqui não se fala com pressa.

Sentei.

Com Minas, as palavras têm peso.

Entre cada frase, o tempo faz uma curva.

É como ouvir um sino distante: cada som vem carregado de espera.

— Foste sempre cauteloso… — arrisquei.

— Não cauteloso. Profundo.

— Enquanto os outros gritam, eu penso.

— E enquanto pensam, eu já decidi.

Minas era brando como o café forte: parece tranquilo, mas estremece por dentro.

Fazia sentido. Era ouro e era lama. Era revolução cochichada em sacristia.

Era Inconfidência antes de virar bandeira.

— Fui voz calada, mas nunca submissa.

— Hoje sou o centro sem holofote.

— A ponte entre os extremos.

— O lugar onde o Brasil respira entre um excesso e outro.

Havia nele a calma dos que sabem demais.

Era como um avô que não conta tudo, só o que importa.

E quando fala, muda o rumo da conversa com um ditado simples.

— Sabes, Brasil… tu és país de extremos.

— Eu sou tua vírgula.

— Eu vi quando tu se perdeu.

— Devagar, sem queda. Por erosão.

— Tu foi se desfazendo sem fazer barulho.

— Eu vi. Mas fiquei.

— E por que não gritou? — perguntei.

— Porque falar demais vira discurso.

— E tu já teve orador demais.

— Gente que grita, promete, dramatiza.

— Mas eu vi por dentro, Brasil.

— Vi tu parcelar liberdade e enterrar esperança em cova rasa.

A mágoa na voz dele era antiga.

Não doía mais.

Virou poeira fina que repousa sobre as janelas coloniais.

Um tipo de tristeza que se acomoda, mas nunca desaparece.

— Talvez eu tenha te deixado quieto demais…

— E eu te deixei ir.

— Meu erro foi confiar que o silêncio te guiaria.

— E não te cansas?

— Canso, sim.

— Mas prefiro cansar calado do que berrar em vão.

Ao redor, as montanhas observavam tudo com paciência geológica.

O tempo ali não passava. Maturava.

Cheirava a pão de queijo, café recém-passado e coisa que não volta mais.

— Minas… o que queres de mim?

Ele me olhou como se já soubesse o fim da frase.

— Só que não me transformes em esquecimento.

— Porque ainda sou verbo.

E então se calou.

Mas com Minas, até o silêncio é um parágrafo inteiro.

E ali, sem dizer mais nada, ele disse tudo.