Já se perguntou o que é um analfabeto funcional?

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É aquele que lê, mas não entende.

Que escreve, mas não comunica.

Que fala muito, mas diz pouco, ou nada.

O analfabeto funcional é o produto de uma cultura que trocou o sentido pela aparência. Ele domina as letras, mas não o espírito delas. É capaz de escrever textos inteiros sem uma única ideia. Em vez de clareza, cultiva o mistério do vazio. E quanto mais incompreensível se torna, mais acredita ser profundo.

Vivemos cercados por esse tipo de discurso. Ele aparece em jornais, universidades, políticas públicas e discursos parlamentares. Há textos políticos que se estendem por páginas inteiras, repletos de “proposições interdisciplinares de caráter transversal e dialógico”, mas que, ao fim, não dizem absolutamente nada. Soa culto, elegante, técnico,  parece importante.

Mas, se você tentar entender, não há nada ali. É um vento encadernado em palavras. Mas na realidade, é preciso compreender a dinâmica intrínseca das condições multifatoriais que, em sua complexa tessitura, delineiam a perspectiva do engajamento crítico enquanto via de reestruturação do paradigma cognitivo contemporâneo.

O analfabetismo funcional não é falta de estudo, é falta de sentido.

É a morte do conteúdo dentro da forma. É a crença de que complexidade é sinônimo de inteligência, quando, na verdade, o sábio é aquele que torna simples o que é profundo, e não o que torna obscuro o que é óbvio.

George Orwell já dizia que “o declínio da linguagem tem causas políticas e econômicas”, e que as palavras vazias são o refúgio dos que não querem ser compreendidos. Monteiro Lobato também via nisso uma doença nacional: o falar bonito sem dizer nada, o culto ao jargão, a preguiça de pensar. O verdadeiro intelectual, o verdadeiro educador, é aquele que escreve com clareza, que fala de modo que o povo entenda sem abrir mão da verdade.

Um bom texto é como uma janela limpa: você olha através dela e enxerga o mundo. O texto do analfabeto funcional é um espelho embaçado: só reflete a própria vaidade. Portanto, cuidado. O analfabeto funcional pode usar terno, ter diploma, escrever artigos, fazer discursos, até ocupar cargos públicos.

Mas se, ao terminar de ouvi-lo, você não sabe o que ele disse, é porque ele também não sabe.

A verdadeira sabedoria é simples. E é justamente por isso que é rara.

Peça à sua avó que te ensine a fazer um bolo de cenoura.

Ela vai dizer assim: “Bate a cenoura com o óleo e os ovos, põe o açúcar, depois a farinha e o fermento. Leva ao forno até dourar. Espeta o garfo, se sair limpo, tá pronto.”

Por vezes o português dela não sairá correto como os tão falados doutores, que tu prefere dar ouvido, mas com toda certeza será, simples, direto, verdadeiro. E o bolo sai. Às vezes não tão perfeito “à final tu não é ela!”

Agora, peça a um intelectual moderno que te ensine o mesmo:

“No âmbito das práticas culinárias contemporâneas, é fundamental compreender a interação simbiótica entre os componentes orgânicos e os agentes levedantes, a fim de se garantir a sinergia estrutural da massa em processo térmico, promovendo, assim, uma experiência sensorial texturalmente satisfatória.”

Pronto. Você não entendeu nada e, pior, perdeu até a vontade de comer o bolo.

E é justamente nesse ponto que muitos caem sem perceber. Aliás, talvez você também tenha caído comigo há pouco, quando escrevi aquele parágrafo cheio de palavras, com aparência de seriedade e estrutura impecável, mas que não dizia absolutamente nada. Dica para você saber qual foi: você não entendeu nada, mas achou que o problema era seu e continuou o texto, me diga ai qual parte foi. .

Afinal, só usei as fórmulas de uma redação nota 1000 no ENEM, imparcial, desprovida de ideias, mas cheia de conectivos e citações de filósofos encaixadas à força. Não precisa ter repertório de verdade: basta decorar a estrutura.Cada parágrafo com um argumento, uma fonte, uma explicação genérica e uma “proposta de intervenção”. No fim, o corretor te dá a nota máxima, não por ter pensado, mas por ter imitado bem quem pensa.

Mas, CALMA!, este texto não é uma crítica ao ENEM. Sei que existe um método, um parâmetro de avaliação, e que dentro dessa lógica ele faz sentido (ou não). Deixemos essa discussão para outro dia.

O que quero dizer aqui é outra coisa: estamos sendo programados para escrever com aparência de relevantes, mas sem nada a dizer. Aprendemos a parecer profundos, não a ser. A preencher linhas, não a comunicar ideias. E quanto mais perfeita a forma, mais vazio o conteúdo. E esse é o retrato mais cruel do analfabetismo funcional moderno: não é falta de leitura, é falta de sentido. É a habilidade de falar muito, sem dizer nada, de encher linhas sem tocar o real. A sabedoria, ao contrário, é simples. Não precisa de adornos, pode tê-los,  mas não faz questão, porque fala daquilo que é.

E talvez, se quisermos voltar a compreender o mundo, tenhamos de reaprender com quem nunca precisou de manual para explicar o óbvio: a avó, o trabalhador, o povo que ainda sabe fazer o bolo, e fazê-lo dar certo