No além, há lugares em que a memória ganha forma. Com Getúlio, encontrei-me num palanque fantasma, rodeado por um mar de aplausos que só eu ouvia, ou talvez fosse só ele quem os ouvisse ainda.

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Lá estava ele: terno escuro, olhar enterrado em sombras, uma voz que soava como vinil antigo, arranhada, mas firme. O pai dos pobres. O padrasto da democracia.

– Brasil, meu filho… demoraste.

– Atrasei-me com Bonifácio.

Ele sorriu de lado. Aquele sorriso que mistura cálculo e cansaço.

– O Patriarca… ainda sonhando com repúblicas ilustradas?

– Ainda. E tu?

– Eu? Eu durmo pouco, mesmo morto. De vez em quando, desço até o Palácio do Catete, só pra ouvir os ecos. O povo esquece rápido, mas as paredes lembram.

Olhei em volta. O palanque se desfazia aos poucos, como se fosse feito de jornal velho e fumaça de comício.

– Getúlio… por que o tiro? Ele se virou lentamente.

– Porque fui usado e descartado. Porque percebi que minha morte seria mais útil que minha vida. E porque, no fundo, achei que assim me entenderiam.

– E entenderam?

– Entenderam o gesto, não a mensagem. Pausa.

– Quis falar pela bala o que o microfone não deu conta.

– E o que querias dizer?

Ele encheu os pulmões de um ar que não existia, como se ainda tivesse que discursar para um país imaginário.

– Quis dizer que havia dois Brasis: o que trabalha e o que explora. Quis dizer que eu tentei ser ponte, mas fui transformado em armadilha. Que fui pai dos pobres, sim, mas também fiador de muitos vícios. E que me culparam por tudo, até pelas chuvas.

– E tu eras culpado?

– Eu era Brasil, Brasil. Como tu. Feito de contradições. Amado por uns, odiado por outros, e usado por quase todos.

Caminhamos lado a lado por um instante. Ele tocava a lapela do paletó como quem verifica se ainda carrega um país no bolso.

– Ainda te invocam de vez em quando, murmurei.

– Sim. Em jingles, em discursos, em redes sociais. Me ressuscitam toda vez que precisam de um salvador… e me enterram de novo quando passa a eleição.

– E o que pensas disso?

Ele parou, encarando-me como se eu fosse um plebiscito.

– Penso que fui mito antes de virar cadáver. Isso é perigoso. Porque mito a gente idolatra… mas não lê.

Olhou para o céu de nuvem nenhuma e murmurou quase em prece:

“Saio da vida para entrar na História… mas até hoje não decidi se isso foi promoção ou castigo.” E então, sumiu como vinheta de rádio ao fim da transmissão.