Veio ele.

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Aliás, ele sempre esteve ali, à margem da página, ao pé da praça, atrás da janela suja onde se escondem as vozes.

Mas, tolo que sou, só o percebi tarde demais.

Era belo, o Povo.

Não aquela beleza clássica de busto romano e toga branca, mas uma beleza morena, suada, feita de feira, de barro, de ônibus lotado e sonho resiliente.

Tinha cheiro de cebola frita e som de samba triste.

Era um mosaico ruidoso, um retalho de tudo o que me tornava possível.

Eu o via de longe, como quem olha o quadro e não o pintor.

Sabia que existia, claro — seria impossível governar sem essa presença incômoda chamada povo.

Mas amar?

Ah, amar requer intimidade. E disso, confesso, eu fugi.

Ele, no entanto, me amava.

À sua maneira, entre o jogo do domingo e o revezamento da marmita. Cantava meu nome.

Fazia feriado no meu aniversário e pagava, resignado, cada imposto vencido, mesmo que o asfalto terminasse dois quarteirões antes da sua casa.

E eu?

Ora…

Eu o trocava por acordos em Brasília, por festas no Itamaraty, por sorrisos em Davos.

— “Depois a gente se acerta”, eu dizia, ajeitando a gravata. Ele acreditava.

O Povo sempre acredita.

Tem essa ingenuidade suicida de quem ainda crê no país, mesmo sem nunca tê-lo visto de perto.

Às vezes ele gritava, nas ruas, nas greves, nos sambas.

Mas meu ouvido, domesticado pelo conforto, fingia-se de surdo.

Quando ele batia à porta com cartazes e olhos vermelhos, eu me escondia atrás da ordem pública.

Mandava policiais, tanques, estatísticas. E um discurso.

Amava-o, sim.

Com aquele amor frouxo e covarde dos homens que só sabem sentir depois da perda. Hoje, defunto, percebo:

foi o único que realmente me amou, e me chorou.

Amou-me sem jamais me possuir.

Amou um retrato falado, uma esperança adiada, uma ideia de país que nunca lhe pertenceu de

fato.

Amou-me com aquele afeto órfão, que só os traídos conhecem.

E talvez, lá no além,

se houver justiça entre os mortos,

ele receba, enfim, um Brasil digno do amor que me deu. E eu, do fundo do meu caixão constitucional,

possa sussurrar:

– Perdão, meu povo.

Eu era teu.

Mas me vendi barato.