Capítulo 14 — inimigo I: O Amarelo

Aquele homem, o Homem de Amarelo, continuava a me observar, com a calma de quem conhece cada parte do sofrimento que se arrasta. Sua presença era como uma marca, uma dor que eu sabia bem, mas que agora, com a morte, se tornava mais clara, mais forte. E naquele momento, enquanto ele estava ali, perto do meu caixão, algo em minha memória voltou.

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Lembrei de duas pessoas. Duas figuras que, embora distantes em espaço, se uniam em uma dor comum, a dor da fome que não se sacia, da miséria que não tem fim. Lá, a terra era poeira. O vento, silêncio. E o tempo, espera.

Chama-se fome.

Não fome de retórica, mas aquela que estala as costelas, que faz os olhos fundos como poços secos. Fome de ontem, de hoje e de amanhã também.

Ali, na minha memória, Fabiano ainda caminha. Com seus pés rachados e sua fala arrastada. Sinhá Vitória cuida do nada. Os meninos… nem nome têm direito. E a cachorra Baleia, se ainda vive, é só osso e afeto.

A seca, como sempre, impera. Nesse lugar voltei.

– Fabiano — chamei.

Ele apenas olhou, com um olhar sem brilho.

– Brasil… por que voltaste?

– Quis ver de perto o que deixei.

– Pois olhe bem — disse ele. — Aqui não tem metáfora. Só fome mesmo.

O chão rachava sob meus pés. Não por causa da terra. Mas por causa do descaso. Lá longe, sentada num caixote, Carolina escrevia.

Era a favela. Era o lixo. Era a vida. Era ela.

“Ontem não comi. Hoje não comi. Amanhã talvez também não.”

Escrevia assim. Sem vírgulas para suavizar. Sem adjetivos que embelezem a tragédia. Sua frase pesava mais que qualquer tratado econômico.

A miséria, ali, não era exceção. Era regra. Era rotina. Era número de IBGE e de lápis gasto no caderno achado.

– Brasil, por que permitiste isso? — ela perguntou.

– Achei que ia passar.

– E passou?

– Não.

Pausa.

Ela pegou mais uma folha amassada e escreveu:

A fome é amarela.”

E eu entendi. Não era só cor. Era doença. Era ausência. Era sol demais e comida de menos.

Fabiano se juntou a ela. Não disse nada. Mas se deitou debaixo de uma árvore morta, como quem espera chover dignidade.

E ali me lembrei do Amarelo, ouvindo as palavras escritas com dor e poeira.

E, enquanto eu, agora defunto, observava o Homem de Amarelo, sentia que essa memória se unia, como duas linhas paralelas que nunca se cruzam, mas que seguem na mesma direção. Uma na favela, outra no sertão. Uma na cidade, outra no campo. Mas a dor era a mesma. Não era o lugar que fazia a diferença. Era o sistema que, em sua indiferença, condenava todos à mesma miséria.

Não é a seca que mata, é o esquecimento. Não é a fome que devora, é a promessa que nunca se cumpre.” Eu podia ouvir essas palavras agora, mais claras do que nunca, como se o tempo tivesse sido dilatado pela memória de um Brasil que não sabia mais para onde ir.

O Homem de Amarelo se aproximou mais, e eu sabia que ele não estava ali para me consolar. Ele estava ali para lembrar que, enquanto houver políticos de estimação que alimentam a fome com promessas vazias, nada vai mudar. As barrigas cheias de fome continuarão a crescer, não de comida, mas de uma falta de dignidade que se perpetua.

E no fim, o que restará será mais um ciclo vicioso, mais uma geração condenada a esperar o que nunca virá. O Homem de Amarelo não era apenas um espectro, ele era o símbolo do que não queremos mais ver, do que não devemos mais aceitar. Ele representava não apenas a miséria, mas a estrutura que a sustenta, alimentada por aqueles que deveriam mudar, mas que nunca mudam nada.

Agora, deitado, sem voz, sem vida, eu sabia: o verdadeiro inimigo nunca será o pobre, mas o Amarelo, ou melhor, aqueles que se aproveitam da pobreza para se manter no poder.