A crise do Nepal é antiga. Em 1990, o país finalmente deixou de ser uma monarquia absolutista, em que o rei era tido como a reencarnação do deus hindu Vishnu, para se tornar uma monarquia constitucional. Tal mudança não foi suficiente para acalmar os opositores comunistas e, entre 1996 e 2006, o Nepal viveu uma guerra civil que opôs monarquistas e uma guerrilha maoísta. Em 2001, parte da família real foi morta por um príncipe, inclusive o rei Birendra. Seu sucessor, Gyanendra, tentou tornar o país novamente uma monarquia absolutista. Como resultado, o rei foi derrubado em 2006, e a monarquia foi abolida de jure dois anos depois. O Nepal se tornou então uma república federativa, e os insurgentes maoístas aceitaram a paz. Tais mudanças trouxeram esperança a um povo relativamente pobre e oprimido. Mas, na prática, pouco mudou para os nepaleses.

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Os partidos que passaram a governar o país himalaio nas últimas duas décadas foram essencialmente de extrema esquerda, com um partido “marxista-leninista” e outro maoísta, herdeiro da guerrilha que trouxe tanto sofrimento aos nepaleses, ocupando a maior parte do cenário político, com um partido de centro-esquerda ocupando o poder brevemente em algumas ocasiões. O resultado é o que se espera quando esses grupos ocupam o poder. Com uma nova constituição, que prevê abertamente uma “orientação socialista”, o país pouco avançou, e a economia depende essencialmente do dinheiro enviado por nepaleses que moram no exterior. O desemprego passa de 10% — com uma taxa duas vezes maior para os mais jovens, que capitanearam as manifestações recentes. Convulsões sociais são comuns, inclusive protestos defendendo a volta da monarquia. Ignorando as demandas da população, o governo decidiu simplesmente sufocar vozes dissidentes nas redes sociais, sendo este o grande estopim dos protestos e da crise atual.

Como dito anteriormente, não são os primeiros protestos e provavelmente não serão os últimos. Os nepaleses já conseguiram derrubar o governo, chefiado por um corrupto primeiro-ministro, ainda que os métodos utilizados — inclusive a depredação de patrimônio público, que culminou no incêndio do parlamento nepalês — possam ser severamente questionados. Boa parte das instituições ainda está nas mãos da antiga elite que dominou o país nas últimas décadas. Se o Nepal seguirá por um caminho racional, que leve o pequeno país ao progresso, apenas o tempo dirá. Mas há agora uma oportunidade de mudança que não se abria havia décadas.