Capítulo 6 – Membros em Ruínas
“Morre-se como se viveu: em pedaços mal costurados pela pressa e pela ilusão.“
Enquanto o colapso me corroía por dentro, minhas partes começaram a se manifestar, uma a uma, como vozes esquecidas num cômodo escuro da alma.
Vinte e seis membros, vinte e seis clamores.

Alguns, confesso, me eram tão distantes que mal recordava seus nomes; outros, tão íntimos que doíam mais do que a própria morte.
É curioso como há pedaços de nós que passam a existência inteira mudos, suportando tudo em silêncio, até que a agonia final os convoque ao protesto.
Foi assim comigo.
O Acre soluçava nos meus ombros;
Minas Gerais arfava no meu peito cansado;
A Bahia murmurava uma ladainha nos meus ossos; O Paraná rangia nos meus joelhos;
O Maranhão latejava como uma ferida esquecida.
Cada membro expunha sua dor:
uns falavam de esquecimento, outros de fome,
outros de abandono.
Havia os que, mesmo na morte, ainda ansiavam por reconhecimento; e havia aqueles que, exaustos de tanta esperança vã, apenas desejavam o silêncio.
Meu corpo se transformara numa assembleia de lamúrias.
Não havia harmonia entre meus pedaços: cada um puxava para um lado, cada um clamava sua própria justiça, sua própria história, seu próprio epitáfio.
E foi assim, ruído de dentro para fora, que enfim sucumbi:
não como nação coesa, não como herói tombado, mas como uma colcha de retalhos desfeita pela ferrugem do tempo.
Morrendo, descobri o óbvio:
Nunca fui inteiro.
Apenas resisti, como resistem os cacos que ainda não aceitaram sua condição de estilhaço.
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