A ideia de tarifa zero no transporte coletivo soa, à primeira vista, como uma utopia moderna. Um gesto de inclusão, um avanço social. Mas como toda utopia imposta de cima para baixo, ela carrega consigo mais perguntas do que respostas, e mais riscos do que soluções.

Acompanhe o MBL no YouTube Análises políticas, debates e bastidores exclusivos
Inscrever-se

Quem vai custear o serviço? Essa é a pergunta que paira sobre Juiz de Fora desde que se intensificaram as discussões sobre a gratuidade total no transporte. A passagem está congelada em R$ 3,75 desde 2019. Segundo a Prefeitura, o custo mensal do transporte gira em torno de R$ 30 milhões, dos quais R$ 20 milhões vêm da venda de bilhetes e os outros R$ 10 milhões saem dos cofres públicos em forma de subsídio.

Com a proposta de tarifa zero, a Prefeitura pretende alimentar o sistema por meio do chamado Fundo Municipal de Transporte, que seria abastecido por três frentes: (1) uma tarifa técnica mensal de cerca de R$ 250 por trabalhador, cobrada de empresas com mais de 10 funcionários; (2) recursos do orçamento municipal; e (3) repasses da União e do Estado.

Mas basta uma leitura menos ingênua para perceber que estamos, talvez, diante de mais um canal nebuloso para o uso dos recursos públicos. Isso porque, até hoje, não existe uma rubrica clara no orçamento para o subsídio ao transporte. A Prefeitura prefere agrupar tudo sob o genérico “gestão do transporte coletivo”, usando instrumentos legais como o crédito suplementar o que, embora previsto em lei, dificulta a fiscalização e a transparência. Para piorar, não há divulgação dos cálculos que justificam os valores repassados ao Consórcio Via JF, que detém a concessão do sistema.

E o que a cidade recebeu em troca? Um sistema que se deteriora a olhos vistos. A prefeita Margarida Salomão, ao manter a tarifa congelada e criar o “Domingão de Busão”  gratuidade aos domingos e feriados, viu o subsídio explodir: de R$ 14,7 milhões em 2021 para R$ 150,6 milhões em 2024. Um salto de mais de 900%.

Enquanto isso, o número de passageiros despencou. Em 2018, mais de 102 milhões de embarques foram registrados. Em 2023, apenas 76 milhões e 29,4% desses eram de gratuidades. Ou seja, o sistema custa cada vez mais, transporta cada vez menos e depende, em grau crescente, do dinheiro público.

Mas a questão vai além da matemática. Vai além da planilha.

O transporte coletivo em Juiz de Fora se tornou um risco real à vida do cidadão. Em 2025, a cidade viu acidentes que expuseram o sucateamento da frota e a negligência com a manutenção dos ônibus:

  • 14 de maio: um ônibus da linha 705 despencou às margens do Rio Paraibuna. Duas mulheres ficaram gravemente feridas. O veículo apresentava falha na direção.
  • 19 de maio: um micro-ônibus da linha 300 capotou num barranco no bairro Niterói. Oito feridos. Dois mortos.
  • 20 de março: um engavetamento no Centro envolveu ambulância, ônibus e outros veículos. Sem vítimas graves, mas revelador: os freios não responderam a tempo.

Não é só a falta de conforto. É o colapso da segurança. A cidade respira com dificuldade, engasgada entre relevos acidentados, pontes estreitas, um rio central e um sistema radial obsoleto, que concentra todos os ônibus no Centro. Como alerta o engenheiro Carlos Antônio, essa estrutura só contribui para o caos urbano.

E mesmo diante disso tudo, o que se viu foi a implantação de micro-ônibus veículos com baixa capacidade que congestionam ainda mais as ruas, sem resolver o problema de origem.

Enquanto se acena com a promessa de gratuidade, o que se esconde é o abandono. Um sistema sem renovação de frota, sem investimentos em mobilidade, sem qualquer visão de futuro.

A proposta da tarifa zero, que nasceu nos anos 90 pelas mãos do engenheiro Lúcio Gregori, inspirado na coleta de lixo urbano, pode até ter boas intenções. Mas transporte não é lixo. Não pode simplesmente ser recolhido. Ele exige infraestrutura, manutenção constante, frota moderna e, sobretudo, segurança. E isso custa caro. Custa planejamento, responsabilidade e fiscalização. Coisas que Juiz de Fora, hoje, não tem garantido.

O que resta então?

Coragem política. Planejamento técnico. Investimento real. Não em gratuidade ilusória, mas em qualidade. Em abrir licitações para novas empresas do setor, em modernizar a frota com ônibus elétricos e articulados. Em revitalizar vias, corredores, asfalto. Em sonhar grande com linhas férreas, integração modal, infraestrutura de verdade.

A verdadeira revolução no transporte não é prometer tarifa zero, é garantir que o juiz-forano chegue vivo, no horário, e com dignidade ao seu destino.

Gratuidade sem transparência, sem qualidade, sem estrutura é uma ilusão perigosa. E toda ilusão, quando se quebra, cobra um preço alto.