Capítulo 11 — Verdade Caduca

Num dos cantos mais sombrios da minha pré-morte, caminhei por ruas que não constavam nos mapas, mas que todos, em vida, conhecem bem. Eram vielas de um país que se acostumou ao desvio como se fosse destino. Ali, não havia placas. As leis, quando escritas, estavam pichadas.

Acompanhe o MBL no YouTube Análises políticas, debates e bastidores exclusivos
Inscrever-se

Naquela paisagem de concreto rachado e juízo esfarelado, ouvi um barulho estranho: era uma multidão rindo.

Aproximei-me.

Riam de um homem que havia devolvido uma carteira perdida.

  • Otário! — gritavam.
  • Vai ver que é golpe! — diziam.
  • Deve tá querendo aparecer! — acusavam.

Ali, o certo era cômico. O honesto, suspeito. O justo, inconveniente.

A verdade? Essa era uma senhora velha, de bengala, tropeçando nas calçadas.

  • Aqui, meu filho.

disse uma mulher que vendia biscoitos e desculpas, a verdade é sempre meia. Meia certa, meia útil, meia inventada.

Continuei a andar.

Vi juízes negociando sentenças com cartões de visita. Vi políticos chamando escândalos de “narrativas”.Vi multidões dizendo “cada um com sua verdade”, como quem diz “cada um com sua mentira preferida”.

E então ouvi um cântico.

Estranho. Trêmulo. Como se um coro desafinado puxasse a sanidade pelos cabelos. Eram eles: Sorôco, sua mãe, sua filha.

Caminhavam pelas ruas, rumo ao manicômio. A mãe com olhos perdidos. A filha sem palavras. Sorôco,o único que tentava manter a dignidade enquanto o mundo o despia de sentido.

E atrás dele… a cidade toda.

  • Estão levando a loucura embora — disse alguém.
  • E por que seguimos?
  • Porque ela já era nossa.

No conto, a cidade inteira canta junto, como se por fim compreendesse o absurdo.

Mas aqui, não compreendiam. Cantavam, zombavam, batiam palmas. A insanidade já era hábito, e hábito, como se sabe, não se contesta.

Na calçada, um menino com olhos fundos me perguntou:

  • Brasil… você já foi lúcido?
  • Talvez — respondi. Ou talvez eu só tenha fingido bem.

Ele sorriu com um dente a menos e correu para vender balas no sinal vermelho. Ao longe, alguém gritava:

  • Verdade é questão de ponto de vista! E outro completava:
  • E crime? Depende do contexto!

Nessa terra, os códigos penais viraram novelas. As algemas, adereços. E a justiça… bem, a justiça ainda se apresentava com vendas nos olhos, mas agora usava fones de ouvido também.

E enquanto todos marchavam alegremente para o hospício, como no conto do Rosa, eu me perguntava:

“E se a loucura for apenas a lucidez que cansou de esperar?”