O Brasil enfrenta problemas crônicos desde sua formação. Ainda no período do Império, as elites articularam com o imperador uma forte centralização do poder na monarquia, temendo que, durante o processo de independência, algumas províncias se rebelassem. Essa estrutura centralizada persiste até hoje: a União concentra grande parte das decisões, dificultando a autonomia de Estados e Municípios.

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Essa centralização cria um distanciamento entre o Estado e o cidadão. As pessoas vivem nos municípios, mas muitas decisões vêm “de cima”, sem considerar a realidade local. Isso gera um sentimento de exclusão política e alimenta a descrença nas instituições.

Outro problema é a dificuldade que o brasileiro comum tem de compreender o funcionamento dos Poderes. Termos como Congresso Nacional (responsável por fazer as leis federais), Senado (representa os Estados), Câmara dos Deputados(representa o povo), Assembleias Legislativas, Ministério Público, entre outros, parecem distantes e confusos.

Essa dificuldade é agravada pela alta fragmentação partidária. São muitas siglas — PT, PL, PSDB, PDT, que, para o cidadão, viram apenas letras sem sentido. A falta de identidade e coerência dos partidos gera desinteresse e desconfiança. Muitos eleitores pensam: “Pra que partido político? Já basta o candidato.”

Com isso, abre-se espaço para o populismo, onde figuras carismáticas ganham poder prometendo resolver tudo sozinhas, como se fossem “salvadores da pátria”. Os partidos, por sua vez, muitas vezes se tornam dependentes do financiamento público, e, ao invés de representar o povo, se aproximam do Governo para garantir sua própria sobrevivência.

Em vez de canais de participação da sociedade, os partidos se comportam como agências de poder, agindo mais para se manter no sistema do que para defender pautas populares. Mesmo quando criam políticas públicas, muitas vezes o fazem apenas por conveniência eleitoral.

Nesse ambiente, a democracia se fragiliza. A confiança do cidadão nas instituições é a base do regime democrático. Quando essa fé se rompe, cresce o risco de rupturas institucionais, como vimos recentemente, com parte da população apoiando um presidente populista, pedindo intervenção militar e colocando em dúvida as eleições e o sistema político. Não é atoa que o Brasil já teve várias constituições e golpes de Estado.

Fica claro que ainda não aprendemos a viver plenamente em uma democracia. O brasileiro até acredita nos valores democráticos, mas não sente que o Estado o representa. Despreza os partidos, desconfia das instituições e se apega a líderes personalistas e patriarcais.

Os partidos precisam estar mais próximos do povo, defender causas com coerência e ter candidatos comprometidos com seus projetos. O Estado deve abandonar a lógica de manutenção do poder a qualquer custo e se reaproximar da população com políticas que resolvam problemas reais.

É fundamental que o brasileiro amadureça politicamente e entenda que nenhum líder está acima da Constituição. As instituições e as leis são a base da liberdade, da justiça e da estabilidade. Proteger a democracia é, antes de tudo, acreditar nela e exigir que ela funcione através de suas instituições.