Um dos temas mais explorados durante a eleição municipal do ano passado para a prefeitura de Belo Horizonte foi a saúde, algo que não surpreende, visto que é um tema recorrente em pleitos municipais. No entanto, Belo Horizonte apresenta algumas peculiaridades. A atual gestão orgulha-se de ser a capital que mais investe em saúde por habitante: R$ 2.015,88 por pessoa — o maior valor entre as capitais brasileiras, 60% acima da média nacional, de R$ 1.223,41.

Ainda assim, esse alto nível de investimento não impede a insatisfação dos munícipes. Um exemplo emblemático é um caso ocorrido em 2023, no Centro de Saúde Santa Amélia, onde um paciente agrediu um médico de 44 anos, quebrando o braço direito do profissional. A violência foi motivada pela insatisfação da paciente com o tempo de espera no atendimento e “por um suposto erro cometido pelo médico, que teria escrito o nome dela de forma errada em uma receita médica”.
Este não é um caso isolado. Belo Horizonte registra, em média, 30 casos de violência por ano em unidades de saúde. Outro dado do mesmo jornal revela que, até setembro de 2023, já haviam ocorrido 29 casos de violência em unidades de saúde da capital.
Apesar das críticas, é importante reconhecer os avanços realizados nos últimos anos. A gestão de Alexandre Kalil encontrou o sistema de saúde em condições muito mais precárias. Até 2017, havia relatos de servidores organizando “vaquinhas” para a compra de fraldas geriátricas, centros de saúde com o forro desabando devido às chuvas e servidores frequentemente ameaçados ou agredidos por pacientes. Infelizmente, essa última situação persiste.
Kalil assumiu a prefeitura com o compromisso de priorizar a zeladoria, ou seja, fazer funcionar aquilo que a cidade já possuía. No setor da saúde, isso traduziu-se na reconstrução e reforma de centros de saúde. De acordo com o plano de governo de Fuad Noman, sucessor de Kalil, Belo Horizonte reconstruiu 50 centros de saúde desde 2017 por meio de Parcerias Público-Privadas (PPP). Isso representa a modernização de um terço das unidades existentes na cidade. Tal foco é essencial, já que os centros de saúde municipais atendem, em média, cinco mil pessoas por ano.

Apesar das reformas, a sobrecarga nas unidades de saúde permanece um problema crítico. Cleide Donária de Oliveira, representante do Sindbel, destacou em entrevista ao Hoje em Dia que, desde 2009, havia a promessa de construir 81 novas unidades de saúde em Belo Horizonte. No entanto, até a gestão Kalil, apenas quatro haviam sido entregues. Restam, portanto, 77 unidades pendentes, um número alarmante considerando o crescimento populacional e o aumento da demanda nos últimos anos.
Se em 2009 já havia consenso sobre a necessidade de novas unidades, é lógico concluir que essa carência se agravou. O resultado dessa insuficiência é a superlotação, a demora nos atendimentos e a consequente migração de muitos cidadãos para a saúde suplementar.
A crescente insatisfação com o sistema público de saúde reflete-se no aumento da adesão a planos de saúde privados. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) de setembro de 2023 indicam que 55% da população de Belo Horizonte possui cobertura de planos privados, totalizando 1.265.264 vidas seguradas. Esse número é um reflexo direto da falta de confiança no sistema público, levando a população a buscar alternativas para garantir segurança e bem-estar.
Outra crítica relevante à gestão atual é a falta de transparência em relação às filas para consultas na cidade. Segundo Rodrigo Paiva, em seu artigo, a prefeitura não divulga informações detalhadas sobre essas filas, o que afronta o princípio administrativo da transparência e desrespeita a Lei de Acesso à Informação (LAI).

A saúde pública em Belo Horizonte apresenta avanços importantes, mas ainda enfrenta desafios estruturais e administrativos que comprometem sua eficiência. A modernização de parte das unidades e os altos investimentos são passos positivos, mas insuficientes para atender plenamente a demanda da população. É urgente que a gestão municipal adote políticas mais transparentes e amplie a capacidade de atendimento, garantindo que a saúde pública seja um direito acessível e digno para todos.
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