Por que ainda fingimos surpresa quando a corrupção nos dá bom dia?

Acompanhe o MBL no YouTube Análises políticas, debates e bastidores exclusivos
Inscrever-se

Se você já leu ou assistiu The Batman, sabe que Gotham City, a cidade onde a história se passa, é praticamente um organismo vivo e doente. É uma terra que pulsa violência e corrupção sistêmica, com uma elite que não apenas tolera o caos, mas lucra com ele.

Gotham é quase um personagem à parte: corrupta, decadente, imprevisível e violenta. Bom, isso não é tão distante das nossas terras tupiniquins quanto gostaríamos. A diferença talvez estivesse no apelo midiático em torno dos psicopatas que a cidade abriga, como o Coringa; mas, tendo em vista o sucesso da série Tremembé e o tratamento que alguns ex-presidiários de lá têm recebido, esse ponto já pode entrar em convergência.

O Caso Master

O caso do Banco Master deveria ter sido o estopim. Seria a nossa versão da cena em que o Batman aciona o sinal e a cidade inteira é obrigada a encarar o próprio reflexo.

Em novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero e prendeu o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, suspeito de comandar uma fraude bilionária baseada na emissão de títulos de crédito falsos. Segundo a PF e o Banco Central, a instituição enfrentava um rombo de R$ 12 bilhões, maquiado por manobras contábeis e operações simuladas com carteiras de crédito inexistentes.

O dono do banco liquidado não era um outsider do sistema. Vorcaro circulava em jantares com grandes nomes do mercado, da elite política e do Judiciário. Mantinha amizades e ligações não apenas com as pessoas mais ricas, mas também com as mais influentes.

Para os fãs de The Batman, esse esquema remete ao arco da Corte das Corujas, a sociedade secreta de Gotham que controla tudo por baixo dos panos.

Como bem disse Andreazza em sua coluna no Estadão, ninguém ergue uma pirâmide financeira como o Master sem um cafezinho com colegas influentes nos Poderes. Esse caso não é sobre simples irregularidades financeiras. É corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e conluio entre agentes públicos e privados.

A elite brasileira: golpista por natureza

Do banqueiro ao vendedor de narcóticos, passando pelos infoproduteiros profissionalizados como Pablo Marçal e Ruyter, existe uma linha invisível que conecta todos eles: a crença sincera de que ser honesto é errado.

Pensadores como Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro já explicaram como o Brasil transformou a troca de favores em método de governo. Em 2025, assistimos à evolução dessa herança. Institucionalizaram a malandragem.

Enquanto o mundo caminha para discussões avançadas sobre IA, minerais estratégicos e fontes energéticas, por aqui nossa elite está preocupada com o estelionato da ocasião.

Sem heróis à vista

Assim como The Batman, o brasileiro médio é órfão. Falta-nos figuras para espelhar. É preciso criar todo um sistema imaginativo do zero. Não dá para esperar que os responsáveis pela lama sejam os mesmos a puxar o país para fora dela.

“Toda revolução parece impossível até ficar inevitável”, já dizia um sujeito com o qual eu discordo. No passo em que o Brasil está, é possível imaginar que alguma ruptura acontecerá. E há uma geração que já nasceu cansada, entediada e revoltada com o fato de herdar um país viciado em repetir golpes, do financeiro ao emocional.

Só o tempo dirá. Gotham, afinal, só começa a mudar quando alguém decide parar de aceitar a cidade como ela é e passa a lutar pela cidade que ela deveria ser. Talvez seja isso que esteja faltando por aqui.