No último fim de semana, como de costume, eu estava dirigindo meu carro para um aplicativo de transporte, fazendo a famosa grana extra. Estava próximo à região centro-sul de Belo Horizonte quando recebi uma chamada de corrida. Segui o endereço indicado pelo GPS e parei em frente a um bar. Há poucas horas havia terminado um jogo de futebol, e a passageira estava vestida com o uniforme do time. Ela se chamava Betânia.

Betânia se aproximou do carro, identificou a placa e embarcou. Entrou animada, brincando sobre a vitória do seu time. Conversamos durante o trajeto, que era de aproximadamente 6 quilômetros e durou pouco mais de 15 minutos.
Logo, Betânia me contou que era professora e que seus alunos, diariamente, brincavam com ela sobre futebol. Perguntei sobre a escola e os alunos, e ela respondeu que leciona em uma escola estadual, em um bairro periférico, e que praticamente todos os estudantes, entre 14 e 15 anos, são moradores da favela próxima.
Curioso, questionei sobre o ensino na escola, e a resposta me deixou perplexo. Betânia contou que o ensino é praticamente inexistente, que grande parte de seus alunos não sabe ler nem escrever. Outros tantos conseguem apenas escrever o próprio nome e algumas palavras, frequentemente com erros e abreviações típicas do WhatsApp. Ela explicou que seu foco principal, no dia a dia, é alfabetizar os adolescentes.

Segundo Betânia, nenhum dos seus “amores” (como ela carinhosamente se refere aos alunos) é capaz de conjugar um verbo corretamente. Ela também nunca conseguiu abordar conteúdos como pretérito, paroxítonas ou interpretação de texto em suas aulas. A maior parte do tempo, os alunos passam navegando na internet, nas redes sociais ou ouvindo música.
Como o destino de Betânia estava próximo, fiz uma última pergunta: como é feita a avaliação dos alunos? A resposta me chocou ainda mais. Ela disse que avaliações praticamente não existem. Segundo Betânia, a diretora da escola nunca solicitou relatórios sobre o desempenho dos alunos. Não há trabalhos para casa, nem provas ao final do semestre.

Confesso que fiquei assustado. Sou uma pessoa de classe média e trabalho duro para manter minha filha em uma escola da rede particular. Ela tem 9 anos e já sabe ler, escrever, interpretar textos e tem noções básicas de ciências, geografia, história e inglês.
Fico imaginando como será a competitividade entre minha filha e os alunos de Betânia no futuro. Onde estarão esses jovens daqui a 10 anos? Será que o Estado enxerga esses adolescentes? Onde está a busca pela igualdade social que os governantes tanto pregam, especialmente em época de eleição? E, afinal, para onde o Brasil está caminhando?
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