Meu pai era um grande fã de novelas, especialmente das mexicanas. Ele se sentava na poltrona com seu café e passava o fim de tarde apreciando, na rede do Silvio Santos, a dramaturgia. Eu, ainda novo, assistia junto. Recentemente, algo me fez relembrar essa passagem da minha vida, trazendo um infindável sentimento de nostalgia: um “edit” no TikTok, mostrado pela minha irmã, apresentava um trecho de uma novela mexicana em especial — A Usurpadora.
A narrativa me marcou pela trilha sonora macabra, pelas palavras difíceis e por ser uma trama crua, que não tinha pudor de mostrar o lado negativo do ser humano, chocando o meu eu pré-adolescente. A novela tratava de duas irmãs gêmeas, Paola e Paulina, separadas na maternidade, que, uma vez reunidas, disputavam o trono e a influência da família Bracho.

A usurpadora da trama, além de perversa, é a definição caricata de uma oportunista, sempre parecendo estar no lugar certo e na hora exata. Tudo parecia dar certo para Paola, que contava com uma intuição aguçada e uma capacidade impressionante de se fazer de vítima. Eu, ainda criança, assistindo ao lado do meu pai, sempre me perguntava quando a “protagonista-vilã” iria cair do cavalo.
Os fins justificavam os meios para a usurpadora, que, em essência, era uma revolucionária. No fundo, Paola queria subverter a lógica familiar em que estava inserida, disfarçando-se de alguém honesta e íntegra. A cena que mais marcou o garoto Victor foi quando Paola Bracho — a usurpadora — se autoacidentava com um vidro no banheiro e, audaciosamente, culpava sua irmã Paulina pelo ferimento.
Paola usava o instrumento familiar para alcançar seus objetivos e vantagens. Os personagens secundários da trama eram meros bonecos de ventríloquo nas mãos da vilã: aliados de ocasião ou inimigos temporários. Pouco importava. O que ela queria era sempre estar na posição de vítima para continuar sua perseguição implacável à irmã gêmea.

A usurpadora era eficaz em sua agenda porque era sorrateira. Mostrava sua sanha revolucionária apenas de forma pontual, aqui e ali, para alguns membros da casa. Se há algo que se pode tirar da novela mexicana para a vida real brasileira, é que o revolucionário mais perigoso é o revolucionário oportunista. Aquele que se traveste de dono da moral e dos costumes, mas que casou três vezes. Aquele que, ao cometer um excesso e chamar um ministro de “canalha”, no dia seguinte escreve uma carta pedindo desculpas. Aquele que insufla uma invasão a um prédio público, mas, no fim do dia, se abstém de assumir o ato.
Não pense que o revolucionário oportunista cresce sozinho. Paola Bracho se aproveitava das mazelas daquela família, explorava as contradições de cada um, captando sentimentos de mudança e progresso em um lar centrado em si mesmo. Muitos personagens da narrativa mudaram de vida graças à usurpadora. Um exemplo é o caseiro, que se tornou segurança, depois amante e braço direito da protagonista. O oportunismo da vilã gerava dividendos para outros oportunistas.
Na vida real, distante das tramas mexicanas, há muita gente que ganha voz e espaço graças aos revolucionários oportunistas. São como mercenários, usados e que também usam o contexto para ascender na hierarquia daquele núcleo.

Para os revolucionários que se valem do oportunismo para mascarar suas verdadeiras intenções, existe apenas um destino, seja no figurado da novela, seja na realidade da vida. O mesmo fim que levou a usurpadora: ser engolida pelo próprio exército de oportunistas mercenários, que se tornou maior do que a causa. Poucos defendiam Paola ou seu código moral; todos defendiam apenas as vantagens que a usurpadora lhes proporcionava.
Nesse sentido, a vida há de imitar a arte. Na realidade política do Brasil, o exército de revolucionários oportunistas de Jair Bolsonaro irá engoli-lo — mais cedo do que tarde.
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