O conto “A Terceira Margem do Rio“ do grande escritor mineiro Guimarães Rosa, pode ser palco para inúmeras especulações, mas hoje, especificamente, olharemos com um viés político, diante de fatos recentes.

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PS: Recomendamos a leitura do Conto antes de adentrar nesse texto.

A história é enigmática, passível de múltiplas interpretações e significados diversos. Nem mesmo o próprio autor deixou uma explicação clara para tal fato.

No curso tortuoso da história recente, o rio da política reflete um cenário inquietante: margens que prometem segurança, mas desabam como barrancos ao toque da realidade. De um lado, a esquerda, com bandeiras de justiça social que, ao vento, se rasgam em interesses próprios. De outro, a direita, exaltando a ordem que dissolve o caos apenas para reconstruí-lo sob novas formas. Ambos lados remam, mas nenhum avança; as promessas tornam-se eco, e o povo, refém da correnteza.

As esperanças vendidas como ouro são, na verdade, pó. Ano após ano, as vozes dos líderes ganham ares deprofecia, mas entregam a resignação. A sociedade, faminta por mudanças, entrega-se ao delírio da crença em um salvador — ora de um lado do espectro, ora de outro. Não é de espantar que a loucura, antes sussurrada, encontre um grito ensurdecedor. Um homem que se explode em Brasília é o símbolo nu e cru dessa insanidade compartilhada: uma manifestação extrema de um sentimento coletivo de abandono e revolta.

No palco da política, os três poderes que deveriam equilibrar-se tornaram-se três margens dissonantes. O Executivo, que deveria liderar, parece remoer-se em vaidades; o Legislativo, em sua cacofonia de interesses, perde o rumo; e o Judiciário, em sua torre de marfim, flutua distante do povo. Assim, o rio que deveria unir os cidadãos em busca de um destino comum fragmenta-se emredemoinhos de desconfiança e frustração.

O cidadão, como o filho do conto de Guimarães Rosa, permanece na margem, esperando ser visto, ouvido,acolhido. Mas o pai — o Estado, os líderes — está na canoa, cada vez mais longe, cada vez mais indiferente. Restam os gritos para tentar alcançá-lo, mas o silêncio é a resposta. A sensação de abandono é o fio condutor que amarra a política à psique coletiva: quando tudo é promessa, nada é ação.

E ainda assim, continuamos. A margem é nosso lugar de espera, nossa cruz e nosso consolo. O rio segue, indiferente, levando nossos medos e nossas esperanças em sua correnteza. Talvez, como na obra de Rosa, a terceira margem não exista, ou talvez seja o espaço daquilo que ainda não se realizou — o sonho de um amanhã em que o rio seja navegável para todos e a canoa conduza não apenas os que remam por si, mas o povo que a sustenta.

Por enquanto, seguimos à deriva, entre a esperança teimosa e a descrença amarga. Afinal, o que é a política, senão esse eterno navegar entre o que poderia ser e o que, tristemente, é?

“Cada promessa é um fio que se parte,

cada esperança, um sopro fugaz.

E nós, náufragos do poder,

alimentamos com migalhas de fé

aqueles que conduzem suas canoas,

não para perto, mas para longe,

onde o rio já não alcança o olhar.”

https://cogetes.epsjv.fiocruz.br/storage/Textos-e-Material-de-Apoio—4º-Ano—Literatura—Gabrielle-n_5ee0d32b36f91.pdf

https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2024/11/6988408-homem-bomba-deixou-mensagem-em-espelho-estatua-de-merda-se-usa-tnt.html