Era uma noite de domingo de eleição do ano de 2020. Lembro-me de estar em uma famosa hamburgueria de Contagem, no bairro Eldorado, com minha família e um grupo de amigos, quando peguei o celular e abri o site do G1 para acompanhar a apuração das eleições. Era o segundo turno das eleições municipais, uma eleição afetada, como tudo naquele ano, pela pandemia da Covid-19.

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O pleito eleitoral havia sido adiado e adaptado na cidade. Em uma eleição polarizada, mesmo no auge do antipetismo, mas com o aumento da impopularidade do Bolsonarismo, Marília Campos do PT venceu a eleição no 2º turno, com uma diferença de apenas 7 mil votos, garantindo seu 3º mandato no Executivo da cidade.

O contexto é o seguinte: Contagem estava ingovernável entre os anos de 2013 e 2019. Em 2012, Carlin Moura (PCdoB) venceu a eleição pelo Partido Comunista do Brasil, fazendo um mandato deplorável, o que fez o desconhecido Alex de Freitas vencê-lo em 2016 por incríveis 72% dos votos.

O que poucos contagenses vão se lembrar é que nos últimos dias de dezembro de 2016, poucos dias antes de deixar o cargo de prefeito de Contagem, Carlin deixaria um “pepino” para seu sucessor, que era sancionar ou vetar a volta da cobrança do IPTU na cidade após 27 anos. O recém-empossado prefeito Alex acabou sancionando o projeto para voltar a cobrança do imposto. Isso fez com que a popularidade de Alex caísse no primeiro ano de mandato. Entretanto, por outro lado, fez com que o município voltasse a ter superávit fiscal em um período de crise no Brasil.

Diante desse contexto, Alex nem tentou a reeleição, deixando assim um vácuo de poder na cidade e o caminho aberto para o retorno da ex-prefeita e, até então, deputada estadual, Marilia Campos (PT).

Quando assumiu a prefeitura da cidade em 2021, Marília não apenas encontrou Contagem com os cofres cheios, devido à volta da cobrança do IPTU, mas também uma cidade abandonada. Diante disso, não acertando muito e errando pouco, garantiu a Marília uma popularidade positiva entre os moradores, algo que não é alcançado por qualquer membro do Partido dos Trabalhadores nas últimas décadas.

Somado a isso, dois anos após sua eleição, Marília poderia contar com o correligionário Lula retornando à presidência, repetindo o cenário de Marília e Lula que aconteceu entre 2004 e 2012. O ambiente se tornou, portanto, propício para Marília fazer o que toda velha política sabe fazer de melhor: populismo!

E o que não tem faltado em Contagem são as famosas obras “eleitoreiras”, principalmente os famosos asfaltos com validade de 4 anos. Por outro lado, não houve desculpas para não finalizar obras inacabadas. E para não fugir à regra da falta de prioridades petistas, realizou eventos “gratuitos” (pagos, é claro, com dinheiro de impostos), levando shows com artistas famosos (ao custo de algumas dezenas de milhares de reais aos cofres da cidade) e fazendo as famosas praças enfeitadas de Natal para Contagem. Essa receita leva à loucura o cidadão médio, que, por falta de entendimento e referencial, acaba achando Marília a “melhor prefeita do mundo”.

Porém, num cenário em que enfrentará candidatos ainda pouco conhecidos na cidade, o que se imagina, até o momento, é que ela não terá dificuldades em se reeleger para seu 4º mandato.

Com isso, faltando seis meses para as eleições municipais de 2024, a dita já desponta nas pesquisas em primeiro lugar, inclusive vencendo em primeiro turno em algumas regiões. Claro que se imagina que apesar da popularidade em alta, Marília irá enfrentar o fantasma do antipetismo, além de críticas, principalmente no que diz respeito às recorrentes enchentes enfrentadas na cidade nos últimos anos.

Por hora, ficam os questionamentos: até quando Contagem ficará olhando para o passado? Até quando o contagense vai se satisfazer com os enfeites de Natal? Até quando o morador de Contagem vai precisar sair para trabalhar em Betim ou BH, sabendo do potencial que Contagem tem e que não é devidamente explorado?

Contagem foi a “Cidade Industrial” de Minas Gerais nas décadas de 60, 70 e 80. E, no presente, tem como motivo de celebração uma praça revitalizada ao custo de 800 mil reais, ao lado de uma Escola FUNEC caindo aos pedaços.

Se para muitos está bom, eu me questiono aqui: até quando aceitaremos isso?