Pouco antes dos levantes populares de 2013/2014, ser chamado de “direitista” soava quase como um palavrão. A queda da ditadura militar e a hegemonia de uma elite cultural e política criaram certos consensos, segundo os quais a existência do campo político da direita no debate público seria muito malvista.

Acompanhe o MBL no YouTube Análises políticas, debates e bastidores exclusivos
Inscrever-se

No entanto, o sentimento antipetista crescente à época tornou possível o ressurgimento de uma direita que, ainda que de certa forma amorfa, sem um plano ou ideias concretas, possuía uma grande revolta e um desejo de mudanças. Aquela direita, sem grandes divisões, de forma una, lutava por pautas concretas como: fim do foro privilegiado, combate à corrupção, manutenção da Operação Lava Jato, impeachment etc.

Em 2017, aquela direita já vitoriosa, após o impeachment de Dilma e a prisão de Lula, se via diante das eleições de 2018 e em um vácuo de lideranças em que, não pela última vez, clamaria pela união da direita em torno de Bolsonaro.

Esse clamor por união se repetiu em algumas ocasiões, como (mas não só): nas denúncias de rachadinha de Flávio Bolsonaro, na desarticulação da “lava-toga” capitaneada pela família Bolsonaro, no acordo de Bolsonaro com Dias Toffoli, nas nomeações para a PGR e para o STF, no apoio a Rodrigo Maia, no posterior apoio a Arthur Lira, na distribuição desenfreada das emendas de relator, entre outras.

A despeito dessa direita — que traiu todas as pautas que a reergueram — não possuir nenhuma ideia que a una, o triste fim de Bolsonaro, prestes a ir para a prisão em regime fechado após uma tentativa patética de golpe de Estado, manteve acesa a militância bolsonarista, que segue desesperada por uma união em torno de um enfrentamento inócuo a um Supremo corrompido.

Qualquer cidadão bem-intencionado e informado que tivesse em vista esse histórico jamais pensaria em levar a sério esses recorrentes pedidos de “união da direita”.

Porém, contrariando todas as expectativas, a tão pedida união da direita começou a ser fortemente cogitada. Quando foi escancarada a barbaridade de um inimigo comum que, tendo em vista o assassinato brutal de um adversário político, de forma absolutamente asquerosa, comemorou e pediu bis, essa reaproximação improvável quase se tornou possível. O que impediu a direita de se unir?

Abandonando todos os seus princípios, de forma nada surpreendente, liderada por Nikolas Ferreira, a “direita” bolsonarista apoiou a PEC da Blindagem (ou PEC Nikolas Ferreira).

Essa ocasião foi, acima de tudo, um símbolo de como a tão sonhada união da direita é sobre aceitar, abraçar o cinismo e apoiar os maiores absurdos, indo contra todos os seus princípios fundamentais. Unir a direita é, ao mesmo tempo, a destruição da direita enquanto conceito.