Seria bom dizer que apenas figuras que marcaram o Brasil positivamente nasceram em território mineiro, mas infelizmente não. Brasília, a grande obra-prima do “progresso”, foi construída no meio do nada, cercada por um imenso vazio, tanto físico quanto simbólico. Juscelino Kubitschek, o mineiro audacioso, decidiu realizar o sonho de José Bonifácio e fincar a capital bem no coração do Brasil. Mas, sinceramente, parecia mais uma piada mal contada: levar o centro do poder para um lugar onde nem os tamanduás achavam graça. Ali nasceu a forma moderna de desviar dinheiro público, produzir leis e técnicas avançadas de como taxar o cidadão. Diante de todo aquele requinte ecoaria o jargão, “roubou, mas fez”.

Acompanhe o MBL no YouTube Análises políticas, debates e bastidores exclusivos
Inscrever-se

Brasília, construída em um tempo de otimismo político e fervor desenvolvimentista, acabou se tornando um símbolo de contradição, onde o progresso anunciado se perdeu em um deserto de desconexão social e geográfica. A ideia de erguer a capital brasileira no coração do país, distante dos centros econômicos e culturais mais vibrantes, acabou por consolidar um espaço de poder isolado, que, ao invés de integrar, pareceu reforçar a separação entre o povo e as elites políticas. É irônico pensar que Brasília, projetada para ser uma cidade moderna e representativa do futuro do Brasil, acabou se tornando um lugar de práticas arcaicas: a corrupção, o desperdício de recursos públicos e a alienação dos cidadãos.

Imagine só se, ao invés das linhas modernistas e das formas geométricas aleatórias, tivéssemos uma arquitetura clássica, com colunas e cúpulas harmoniosas. Pelo menos na arquitetura clássica, até os desvios de verba teriam um toque de elegância! A escolha por um estilo de arquitetura modernista, com suas formas geométricas ousadas e despojadas de ornamentos, acaba refletindo mais um desejo de ruptura do que de continuidade. Em vez de construir algo atemporal, Brasília se tornou uma relíquia do passado, datada, uma obra-prima de um futurismo que envelheceu mal. Enquanto os ideais de modernidade perdem sua relevância, a austeridade e a solidez da arquitetura clássica, baseada em proporção e harmonia, ainda se mantém como um símbolo de estabilidade. Esse tipo de arquitetura teria ressoado mais profundamente com o Brasil, um país onde as tradições culturais, por mais diversas que sejam, possuem uma base enraizada em uma história coletiva.

E enquanto se falava em progresso, o que se construiu, de fato, foi um resort de primeira classe para políticos. E não qualquer resort, mas um com esquemas “all inclusive”: corrupção, conchavos e “desvios orçamentários” à vontade. Enquanto isso, o povo, ah, o povo… ficava a quilômetros de distância, literalmente.

A ideia de “diminuir as distâncias” ao criar Brasília é um dos maiores paradoxos da história nacional. Queriam aproximar o poder das fronteiras do país, mas acabaram isolando-o no planalto, longe dos grandes centros e, claro, da realidade. Diminuir as distâncias? Me diz aí: quando foi a última vez que você viu um político saindo do conforto do Planalto para visitar o sertão nordestino, o vale do Jequitinhonha, ou o município de Altamira, para “integrar o Brasil”? Pois é, podemos até dizer que Beto Jamaica tinha razão “Essa é a mistura de Brasil com o Egito”, afinal os “integradores” ficaram bem acomodados nas suas pirâmides de concreto, ou talvez mais parecido com as esfinges do Egito, observando de longe e em silêncio, como se guardassem um segredo milenar – o da corrupção.

No fim das contas, Brasília, que nasceu com promessas de “50 anos em 5”, acabou entregando “50 anos de dívida”. Talvez JK quisesse mesmo imitar o Egito, criando uma dinastia de faraós tupiniquins, acumulando riqueza enquanto o resto da população trabalhava para sustentar essa “grande obra”. Se tivesse optado por uma arquitetura clássica, ao menos teríamos um cenário mais coerente para essa tragédia cômica: algo como um grande teatro romano. E, por falar em teatro, não faltaria entretenimento para os cidadãos, já que Brasília continua sendo palco de grandes espetáculos – as sessões no Congresso, as investigações de corrupção e, claro, os discursos inflamados. Faltaria só a pipoca para o show ser completo.

No final das contas, Brasília se tornou mais um exemplo de como o “progresso” pode ser distorcido, servindo de desculpa para criar um playground de poder e vaidade política. Quem poderia imaginar que, no meio do cerrado, do encontro entre a modernidade artificial e a tradição esquecida, surgiriam dois postes, uma cuba e uma bacia, compondo o estranho cenário que hoje conhecemos como Brasília? Não uma capital dos sonhos, mas um verdadeiro “clube do bolinha” das elites políticas, isolada do Brasil real.

E Minas, que tanto tem para se orgulhar de sua história, infelizmente, de suas figuras ilustres, tem o que lamentar. Não pela ousadia de Juscelino, mas pela oportunidade perdida de fazer algo que representasse, de fato, a alma do povo mineiro e, por extensão, do povo brasileiro. Ao invés de erguer uma cidade que capturasse a essência da cultura nacional – acolhedora, criativa, ligada às suas raízes – o que tivemos foi uma construção fria e distante. Talvez, se Juscelino tivesse buscado inspiração na simplicidade mineira, ou na rica diversidade brasileira, Brasília poderia ter sido um símbolo de união e identidade, e não apenas um monumento ao poder e à desconexão.

Bibliografia:

https://www.brasilparalelo.com.br/colunas/brasilia

https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/construcao-de-brasilia.htm#:~:text=A%20constru%C3%A7%C3%A3o%20de%20Bras%C3%ADlia%20foi,o%20come%C3%A7o%20da%20rep%C3%BAblica%20brasileira.

https://revistaoe.com.br/a-historia-da-construcao-de-brasilia