Capítulo 22 – Do Opressor
Foi numa dessas tardes eternas do além, em que o tempo se espreguiça como funcionário
público em repartição sem chefe, que reencontrei Paulo Freire. Estava sentado sob uma

mangueira metafísica, lendo um velho exemplar de Pedagogia do Oprimido, com o mesmo fervor
com que outrora se lia a Bíblia em noites de apagão.
— Ora, Brasil! — exclamou ele, com aquele sorriso de quem ainda acredita. — Veio para
aprender ou para lamentar?
— Para recordar, Paulo. Recordar e, quem sabe, rir um pouco. Porque chorar, já não me resta
lágrima — respondi, ajeitando minha mortalha com dignidade de ex-presidente deposto.
Ele me ofereceu um banco de nuvem. Sentei-me com o peso de cinco séculos nos ombros e um
boletim do ENEM no bolso.
— Sabia que sua alfabetização libertadora deu certo demais? Ensinaram a ler. Agora leem até
rótulo de shampoo… mas não compreendem nem bula de aspirina. Antes, era não saber juntar
as letras; hoje, é saber juntar e não entender o que se juntou.
Paulo franziu o cenho, como quem perde o gosto do café.
— A educação é um ato de amor, Brasil. Um ato de coragem…
— E de ironia, Paulo! Ironia! Você, com suas ideias de diálogo, foi interpretado por burocratas
que mal sabem conjugar o verbo “interpretar”. Transformaram “ensinar com o outro” em “não
ensinar nada para não constranger o outro”. E veja só! Para não oprimir o oprimido, preferiram
oprimir o conteúdo.
Ele suspirou.
— Mas democratizamos o ensino…
— Democratizamos, sim. Democratizamos o vazio. Entregamos diplomas com o entusiasmo de
quem distribui pipoca em festa de criança, mas sem perguntar se o milho estourou. O sujeito se
forma em Letras e não consegue ler Guimarães Rosa sem se perder no primeiro “nonada”.
Fitei-o com compaixão e um quê de sarcasmo.
— Dantes, Paulo, os analfabetos não sabiam ler. Agora, leem, mas não sabem pensar. Vêem
uma frase com sujeito oculto e pensam que é teoria da conspiração. Trocam o sentido das
palavras como quem troca o nome do candidato nas urnas.
E, como quem cita com elegância, recitei-me:
“Ao vencedor, as batatas.”
Pois bem, Paulo, aos nossos jovens, nem isso. Entregamos as cascas.
Ele abaixou os olhos. A mangueira, solidária, deixou cair uma folha.
— Transformaram consciência crítica em opinião sem fundamento — disse ele, quase num
sussurro. — Confundem liberdade com ignorância insolente. Até a dúvida virou ofensa.
— E pensar que você queria a educação como prática da liberdade! Hoje ela é prática do lacre. O
aluno grita, cancela, debate em caixa alta… mas não interpreta um parágrafo de Lima Barreto.
Paulo cerrou os olhos. Pela primeira vez, pareceu cansado.
— Ainda há esperança, Brasil?
— Esperança é o que mais se imprime. Está nas propagandas, nos slogans ministeriais e nos
desfiles cívicos. Mas a realidade? Ah, a realidade é uma redação com nota 900 que começa com
“A questão da educassão é muito enrrolada pois o jovem não quer estuda”.
Levantamo-nos. Paulo guardou o livro, não sem antes marcá-lo com um graveto de nuvem.
— Talvez tenhamos sido lidos com pressa, Brasil.
— Ou por quem nunca leu nada além da própria timeline — repliquei, com um riso melancólico.
— Mas vá, Paulo. Ainda há professores honestos. Poucos, sim, mas há. Resistindo como última
vela acesa em apagão pedagógico.
E ele foi. Sumindo na névoa branda do além, com o mesmo ar sonhador de quem acredita que
ensinar ainda vale a pena, mesmo que o aluno te responda com emojis.
Fiquei ali, ruminando a lembrança. E pensei, com o mesmo sarcasmo com que enterrei minha
pátria:
“O maior dos analfabetismos é o que não sabe ouvir. Porque quem não ouve, tampouco
entende. E quem não entende, vota mal, pensa pouco e escreve pior.”
E com isso, fechei mais um capítulo da minha memória morta.
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