Capítulo 22 –  Do Opressor

Foi numa dessas tardes eternas do além, em que o tempo se espreguiça como funcionário

Acompanhe o MBL no YouTube Análises políticas, debates e bastidores exclusivos
Inscrever-se

público em repartição sem chefe, que reencontrei Paulo Freire. Estava sentado sob uma

mangueira metafísica, lendo um velho exemplar de Pedagogia do Oprimido, com o mesmo fervor

com que outrora se lia a Bíblia em noites de apagão.

— Ora, Brasil! — exclamou ele, com aquele sorriso de quem ainda acredita. — Veio para

aprender ou para lamentar?

— Para recordar, Paulo. Recordar e, quem sabe, rir um pouco. Porque chorar, já não me resta

lágrima — respondi, ajeitando minha mortalha com dignidade de ex-presidente deposto.

Ele me ofereceu um banco de nuvem. Sentei-me com o peso de cinco séculos nos ombros e um

boletim do ENEM no bolso.

— Sabia que sua alfabetização libertadora deu certo demais? Ensinaram a ler. Agora leem até

rótulo de shampoo… mas não compreendem nem bula de aspirina. Antes, era não saber juntar

as letras; hoje, é saber juntar e não entender o que se juntou.

Paulo franziu o cenho, como quem perde o gosto do café.

— A educação é um ato de amor, Brasil. Um ato de coragem…

— E de ironia, Paulo! Ironia! Você, com suas ideias de diálogo, foi interpretado por burocratas

que mal sabem conjugar o verbo “interpretar”. Transformaram “ensinar com o outro” em “não

ensinar nada para não constranger o outro”. E veja só! Para não oprimir o oprimido, preferiram

oprimir o conteúdo.

Ele suspirou.

— Mas democratizamos o ensino…

— Democratizamos, sim. Democratizamos o vazio. Entregamos diplomas com o entusiasmo de

quem distribui pipoca em festa de criança, mas sem perguntar se o milho estourou. O sujeito se

forma em Letras e não consegue ler Guimarães Rosa sem se perder no primeiro “nonada”.

Fitei-o com compaixão e um quê de sarcasmo.

— Dantes, Paulo, os analfabetos não sabiam ler. Agora, leem, mas não sabem pensar. Vêem

uma frase com sujeito oculto e pensam que é teoria da conspiração. Trocam o sentido das

palavras como quem troca o nome do candidato nas urnas.

E, como quem cita com elegância, recitei-me:

“Ao vencedor, as batatas.”

Pois bem, Paulo, aos nossos jovens, nem isso. Entregamos as cascas.

Ele abaixou os olhos. A mangueira, solidária, deixou cair uma folha.

— Transformaram consciência crítica em opinião sem fundamento — disse ele, quase num

sussurro. — Confundem liberdade com ignorância insolente. Até a dúvida virou ofensa.

— E pensar que você queria a educação como prática da liberdade! Hoje ela é prática do lacre. O

aluno grita, cancela, debate em caixa alta… mas não interpreta um parágrafo de Lima Barreto.

Paulo cerrou os olhos. Pela primeira vez, pareceu cansado.

— Ainda há esperança, Brasil?

— Esperança é o que mais se imprime. Está nas propagandas, nos slogans ministeriais e nos

desfiles cívicos. Mas a realidade? Ah, a realidade é uma redação com nota 900 que começa com

“A questão da educassão é muito enrrolada pois o jovem não quer estuda”.

Levantamo-nos. Paulo guardou o livro, não sem antes marcá-lo com um graveto de nuvem.

— Talvez tenhamos sido lidos com pressa, Brasil.

— Ou por quem nunca leu nada além da própria timeline — repliquei, com um riso melancólico.

— Mas vá, Paulo. Ainda há professores honestos. Poucos, sim, mas há. Resistindo como última

vela acesa em apagão pedagógico.

E ele foi. Sumindo na névoa branda do além, com o mesmo ar sonhador de quem acredita que

ensinar ainda vale a pena, mesmo que o aluno te responda com emojis.

Fiquei ali, ruminando a lembrança. E pensei, com o mesmo sarcasmo com que enterrei minha

pátria:

“O maior dos analfabetismos é o que não sabe ouvir. Porque quem não ouve, tampouco

entende. E quem não entende, vota mal, pensa pouco e escreve pior.”

E com isso, fechei mais um capítulo da minha memória morta.