A morte me trouxe muitos reencontros. Alguns festivos, outros formais, uns tantos burocráticos

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(sim, até no além há carimbo). Mas o que me aguçava o espírito, ou o que resta dele, era rever o

velho Bonifácio.

José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência. Chamavam-no assim, embora

ele preferisse títulos mais discretos, como “naturalista”, “mineralogista” ou “homem que leu

demais para o tempo em que viveu”.

Encontrei-o numa biblioteca celestial, entre códices gregos e tratados franceses, olhos

enterrados num volume de Montesquieu, sobrancelhas arqueadas como quem ainda esperava

que eu aprendesse alguma coisa.

— Sente-se, Brasil. Temos muito o que conversar.

Sentei. Senti-me um aluno repetente diante do mestre que acreditou demais no meu boletim.

— Tu lembras do que te ensinei?

— Vagas lembranças, confesso. Havia algo sobre cidadania, ética, reforma agrária e…

— E tu fizeste o quê? Coronelismo, clientelismo, jabuticaba constitucional e uns três séculos de

desculpas esfarrapadas. Eu devia ter insistido mais no método socrático.

Ele suspirou, fechando o livro com um estalo de decepção educada.

— Olha, Brasil, eu tentei. Acreditei que tu podias ser uma nação racional. Planejei universidades,

escrevi sobre liberdade, sonhei. Mas bastou um punhado de cafezais e um baile no Rio de

Janeiro pra te distraírem por décadas.

— Eu era jovem, retruquei. Tinha sede de liberdade e samba.

— Tinhas sede de comodismo, isso sim. Deste-me ouvidos apenas até onde a lição não

contrariava os teus desejos. E depois me despachaste para o exílio, duas vezes!

— Foi mal.

— “Foi mal” não é desculpa constitucional, rapaz! Onde já se viu fundar uma nação em cima de

improviso e jeitinho?

— Mas há beleza no improviso, Bonifácio.

— Há, sim. No teatro. Não no Estado.

O Patriarca levantou-se, caminhando entre estantes, mãos nas costas, como quem carrega a

História nas vértebras.

— O que mais me dói, Brasil, não é o que fizeste de mim. É o que fizeste de ti. Eu te sonhei

Iluminista. Tu viraste reality show político.

— Mas resisti…

— Em partes. Resististe feito palha úmida ao fogo.

Sentou-se de novo, mais calmo. Tirou do bolso um lenço imaginário e limpou os óculos que não

usava.

— Ainda assim, meu velho… ainda assim, gosto de ti. Tens uma alma bonita quando não está de

ressaca cívica. Quando lembras do que pode ser, e não só do que tem sido.

Eu sorri.

— Acha que ainda há esperança?

Ele pensou por um instante.

— Há sempre. Mas não abuses dela. Esperança demais também emburrece.

E voltando ao seu livro, murmurou como quem lê e sonha ao mesmo tempo:

“Se for por ti, Pátria amada, tudo se fará possível. Até mesmo a razão.”