Capítulo 5 —Tiradentes
Na antessala dos mortos ilustres, entre um silêncio solene e o cheiro de república velha, encontrei Tiradentes.

Estava lá, inteiro, o que já era milagre, considerando o que fizeram com ele em vida. Barba longa, olhos fundos, expressão de mártir em descanso.
— Ora, se não é o próprio Brasil — disse ele, com um ar de quem esperava mais de mim.
— Em frangalhos, mas sim — respondi, arrumando o colarinho cívico da mortalha. Ele me olhou como se lesse minha alma… ou meu orçamento fiscal.
— Morreste, enfim?
— De colapso interno. Não teve enforcamento, nem esquartejamento. Fui me desfazendo aos poucos… como Constituição mal redigida.
— E a liberdade?
— Liberdade? Ah, sim… tivemos alguma. Principalmente a de consumir, mentir e esquecer. Tiradentes ergueu uma sobrancelha.
— E a pátria?
— Foi rifada. Em suaves prestações.
— E o povo?
— Virou eleitor compulsivo e consumidor intermitente. Comprava esperança em pacotes mensais. Devolvia quebrada, mas seguia tentando.
— E o Auxílio?
— Placebo bem embalado. Aliviava a culpa de cima, mantinha a miséria de baixo.
— E chamavam isso de justiça social?
— E colocavam no palanque.
Tiradentes caminhou em silêncio por alguns passos, como quem pisa nos escombros da própria causa.
— Eu morri por um sonho — disse ele.
— Eu morri porque insisti em dormir demais — retruquei.
Ele suspirou. E com a serenidade dos que já não esperam salvação, apenas murmurou:
— Ao menos, você teve um funeral.
— Pois é… com bandeira e tudo. Mas, ironicamente, foi a única vez em que fui verdadeiramente unido.
E ali ficamos, dois defuntos ilustres, ele com sua dignidade intacta, eu com meu CPF cancelado.
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