Capítulo 21 –  inimigo III: Vaidade Nacional

Era bela.
Ah! como era bela.

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Tinha o rosto pintado com as cores da pátria

e um sorriso pronto para os cartões-postais.

Chamava-se Vaidade Nacional.

sobrenome em letras douradas,

muito brilho, pouco lastro.

Andava de verde e amarelo,

recitava “Minha terra tem palmeiras” com o peito inflado,

mas não suportava olhar para as árvores caídas.

Preferia o sabiá do poema

à fome que canta nas janelas do subúrbio.

Dizia-se patriota.

Mas o seu patriotismo era como o de certos poetas românticos:

feito à distância, entre rimas e saudades,

sem os calos do povo que pisa o barro.

“Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte para lá”, repetia,

mesmo nunca tendo saído daqui.

Amava falar de mim, o Brasil,

mas apenas do Brasil-mito, Brasil-carnaval, Brasil-milagre.

O Brasil do verso bordado e da camisa vendida na copa.

Não o Brasil do trem lotado, das vias não pavimentadas,

do Brasil negligenciado.

Se alguém dizia que o sabiá calou,

ela dizia ser pessimismo.

Se apontavam as palmeiras queimadas,

acusava “falta de amor à pátria”.

Se um estrangeiro fazia crítica,

ela gritava:

— “Então vai morar em Cuba!”

Falava em nome da pátria,

mas vivia do reflexo dela,

como Narciso, mas de chinelo Havaianas.

Adorava slogans:

— “O melhor país do mundo!”

— “Gigante pela própria natureza!”

E se alguém ousava dizer que o país precisava mais de espelho do que de holofote,

ela se ofendia.

Chamava de traidor quem lhe mostrava as rachaduras.

Ah, Vaidade…

Tu que preferes as aves que aqui gorjeiam,

mas nunca escuta as que agonizam.

Tu que suspiras pelas flores que enfeitam os campos,

mas nunca chora pelas que apodrecem no lixo da cracolandia.

Não queres memória, queres moldura.

Não queres história, queres holograma.

Amavas-me, sim,

mas só nas selfies com bandeira.

E só enquanto eu sorrisse.

Vaidade Nacional foi uma das que mais chorou no meu velório.

Não por dor, mas por estética.

Disse que minha morte era uma injustiça.

Mas pediu que não colocassem fotos feias na retrospectiva.