Capítulo 19 – Das correntes

Preciso confessar, agora que tudo passou, ou que todos fingem que passou, que fui senhor de muitos cativeiros. Digo isso não com orgulho, tampouco com arrependimento: ambos são luxos inúteis à altura em que escrevo. Digo-o porque é verdade. E há verdades que, por mais incômodas, precisam ser vomitadas.

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Fui senhor. De corpos, de almas, de futuros. Fui dono de homens. E não apenas de um tipo, não me acusem de seletividade. Submeti o indígena, o negro, o branco miserável. Qualquer um que pudesse ser curvado ao peso da necessidade foi arrastado para minha engrenagem. A escravidão, para mim, era uma ferramenta, não um dogma. Onde houvesse força útil, ali eu plantava minha corrente.

“Era um sonho dantesco… o tombadilho / Que das luzernas avermelha o brilho”. Vi isso, não no mar apenas, mas nas fazendas, nas minas, nos campos.

Vi crianças caladas como espectros, homens com os olhos ocos, mulheres grávidas do próprio desespero.

“Mil almas no porão presas!”, sufocadas, misturadas, indistintas. Apenas números de carga. Apenas custo e rendimento.

Tomei o índio pela mão, dizendo-lhe que conheceria o Céu. Ao invés disso, dei-lhe o inferno em terra firme.

Trouxe o negro nos navios, cobertos de fezes, vômitos e preces. não as preces que sobem, mas as que afogam.

Pus o branco pobre na enxada, sem ferros nos pés, mas com a dívida nos ombros. Todos escravizados.

Uns por correntes. Outros por promessas. A maioria por fome.

Construi um país com isso. Um império de carne.

Um tear de ossos. Uma engrenagem que triturava tudo e devolvia açúcar, ouro e café.

A liberdade, sim, veio.

Não tão cedo quanto devia, nem tão tarde quanto poderia. E ainda culparam a doce Isabel que nunca alimentou tal covardia.

Assinou sem teatralidade.

Não a desprezo, como alguns gostariam de imaginar. Ela foi justa, ainda que insuficiente.

Foi alforria.

Mas o problema não está nela, e sim no que fizeram dela. Hoje, ninguém quer mais liberdade.

Querem revanche.

Querem inverter o pelourinho.

Passar o chicote à outra mão. Culpar quem nunca teve a culpa.

Transformar dor em capital político, ressentimento em herança, culpa em moeda de troca.

O negro não quer esquecer. O branco finge que nunca soube.

E os novos senhores de hoje vivem de sustentar o trauma como se ele fosse uma instituição permanente.

“Senhor Deus!… Dizei-me vós, Senhor Deus!… Se é loucura… se é verdade…”

Pois é verdade.

Loucura é continuar fingindo que não é.

Se há algo mais perverso que o navio negreiro, eu não sei, mas o que veio depois dele? a museificação do sofrimento.

A indústria da culpa.

A reinvenção da corrente, agora mais sutil, mais simbólica, mas ainda corrente.

E você, leitor, se julga livre?

Veja bem com que linguagem fala, com que discurso se alimenta, com que história se identifica. Talvez carregue também, nos ombros ou nas palavras, algum tipo de cativeiro.