Capítulo 12 — Meu sorriso

Depois da Bahia, ele chegou.

Curvado.

Acompanhe o MBL no YouTube Análises políticas, debates e bastidores exclusivos
Inscrever-se

Como quem carrega o próprio passado nas costas e ainda tenta dançar com ele.

Era ele, o Rio. A minha boca.

Ou melhor: meu sorriso gasto, meu beijo roubado.

A cidade que um dia falou por mim e hoje sussurra entre estilhaços.

Entrou como quem já foi estrela, mas agora caminha no escuro com óculos de sol.

Camisa aberta, peito no vento, aquele charme meio vencido que ainda seduz.

Faltavam dentes. Sobrou vaidade.

E um hálito doce-amargo, feito poesia embolorada.

Mesmo assim, era ele.

O Rio. O meu carisma quebrado.

A boca do Brasil, onde a alegria foi aprendida e a dor, disfarçada.

— Te reconheci de longe, sabia? — disse, tentando encontrar seus olhos por trás da pose.

Ele riu de canto, aquele riso que não chega no olhar.

— E tu? Continua achando que é bonito demais pra sofrer?

— Porque eu, amor… já fui vitrine.

— Hoje, sou vitral rachado.

— Tenho dentes amarelados e histórias cariadas.

A voz dele ainda soava como mar:

Ondas quebrando em calçada, sambas de longe, sirenes que viraram trilha sonora.

Mas havia uma pausa entre as palavras.

O tipo de pausa que só quem já foi palco demais entende.

— Eu te servi, Brasil.

— Fui tua boca sorrindo pro mundo.

— Por minha causa, tu foi ao teatro, ao desfile, ao delírio.

— Cada nova fase tua, eu vestia fantasia.

— Sorria, mesmo sob o peso do tiro, da lama, da lágrima.

— Sorria, porque tu queria me ver sorrindo.

— Eu te expus demais… — confessei, quase sem voz.

— E tu me gastou.

— Me mostrou demais, até que o brilho virou desgaste.

— Mesmo assim…

— Quando tu quebrava, era aqui que tu vinha se esconder.

— Na minha areia, na minha boemia, no meu caos disfarçado de beleza.

— No meu colo, onde até a tragédia parece ensaiada.

Ele suspirou. E no sopro, senti anos de festa e luto misturados.

— A verdade, Brasil, é que eu sempre fui teu espelho.

— E talvez por isso doa tanto te ver assim, calado, no fim.

— Mas não vim cobrar. — disse, finalmente com doçura.

— Vim porque tu foi meu também.

— Mesmo ausente, mesmo errado.

— Vim porque tua história passa por mim e sangra em mim.

— E ela ainda vive aí? — perguntei.

— Vive.

— Nas rachaduras dos prédios antigos.— Na música que insiste.

— Na saudade que ninguém sabe explicar.

Ele não esperou resposta.

Saiu como chegou:

Com o charme da tragédia,

E a elegância de quem já sabe que a despedida também pode ser espetáculo.