Capítulo 4 — O xarope da Nação
Enquanto o sangue ainda circulava, teimoso, embora já cansado, pelas minhas veias patrióticas, um sujeito, acomodado à sombra de um gabinete refrigerado num prédio público qualquer (desses onde o tempo passa devagar e os salários não), teve uma ideia luminosa: criou um xarope. Ou, como preferiu chamar, um elixir de nome pomposo: Auxílio.

Tão generoso no nome quanto inútil na aplicação.
Prometia curar minha miséria, aliviar minha pobreza, sustentar os pés rachados que andaram séculos sem rumo e consolar mágoas que nem Freud explicaria.
Era, segundo os entusiastas, um bálsamo social.
Um gesto de amor ao próximo, diziam com a mão no bolso alheio, é claro.
Mas o tal Auxílio era, na verdade, um placebo disfarçado de milagre, um xarope açucarado que apenas adocicava a consciência dos que o ofereciam, enquanto nutria com gosto os parasitas que me devoravam por dentro.
Se me perguntarem o que curou, direi que nada.
Se insistirem, acrescento que serviu a um único propósito: gastar o dinheiro dos tolos e perpetuar a existência dos que jamais quiseram existir por conta própria.
Houve quem o tomasse com fé messiânica, sorvendo-o como se fosse vinho sagrado. Eu, por mim, engoli por obrigação, não sem náusea.
O criador do elixir, esse, jamais o provou.
Ficou com a glória da invenção, a lisonja da imprensa e o aplauso dos ingênuos. E, convenhamos, não foi pouco.
Morreu comigo o segredo da fórmula, não por zelo, mas por desinteresse.
Pois não havia nela ciência nem milagre, apenas a velha e refinada arte de dizer com palavras o que nunca se pretendeu fazer com ações.
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