Era tarde da noite, talvez em algum teatro esquecido do Brasil, e uma luz se apagava. Não era um refletor. Era uma piada. Um riso. Uma fagulha de liberdade. A sentença contra o comediante Léo Lins não se limita ao campo jurídico, é uma cena emblemática de um país que, diante do palco, começa a temer o espetáculo das palavras. O riso, que antes ecoava como aplauso da liberdade, agora soa como evidência de um crime.

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Em 1940, Londres tremia sob as bombas de Hitler, mas um grupo de exilados e intelectuais se reunia ao redor de microfones e papéis com uma missão quase absurda: fazer rir. Enquanto os nazistas criminalizavam quem ouvia rádio estrangeiro e matavam pela suspeita de escutar ideias, esses exilados escreviam sátiras como quem desenha uma flor em meio a escombros. Eles sabiam: onde não há humor, há totalitarismo. Porque o riso é, em última instância, a negação do medo.

Hoje, quase um século depois, é o Brasil que treme, não sob bombas, mas sob códigos penais, ou wikipédia e silêncios impostos. A prisão de um humorista por piadas é mais do que a censura de uma fala: é a criminalização de uma função vital do ser humano a ironia, o absurdo, o cômico. Se não podemos mais rir do que é trágico, teremos que chorar diante do ridículo.

George Orwell escreveu A Revolução dos Bichos como um alerta: quando os porcos assumem o poder, começam dizendo que querem igualdade, mas logo se tornam mais iguais que os outros. Hoje, os novos porcos da fazenda moderna togados, burocratas, ideólogos de estimação, redefinem o que pode ser dito, e punem quem ousa rir da ordem. Primeiro, proíbem a piada. Amanhã, proibirão o pensamento.

Porque tudo começa com um princípio supostamente nobre: proteger sentimentos. Mas sentimentos não se protegem com algemas. Piadas podem ofender, sim, como pode ofender um espelho. E se há algo que o poder não suporta, é o reflexo de si mesmo em um palco de stand-up.

Léo Lins não foi condenado por um crime de ódio. Foi condenado por um ato de liberdade cômica. E isso é precisamente o que as tiranias modernas mais temem: o humorista. O artista. O marginal que não se curva. O que transforma a tragédia em troça. O que, como Robert Lucas, acredita que mesmo debaixo das bombas, ou dos processos, vale a pena rir. Vale a pena viver.

Theodor Adorno, filósofo da Escola de Frankfurt, dizia que não se pode mais fazer poesia depois de Auschwitz. Mas mesmo ele hesitava diante do riso. E no entanto, os exilados que arriscaram a vida para escrever piadas para o povo alemão provaram o contrário: a sátira é, muitas vezes, o último abrigo da dignidade. Porque nela ainda habita o escândalo do humano, sua contradição, seu limite, seu protesto.

A prisão de Léo Lins deveria nos escandalizar não apenas por ser um ataque ao artista, mas porque revela a consolidação de uma lógica: onde o poder não pode mais convencer, ele cala. Onde não pode mais governar corações, ele legisla sobre bocas.

Hoje, condenam o comediante. Amanhã, será o padeiro, o pai de família, a professora. Todos que ousarem falar fora da cartilha. E quando todos estiverem calados, os porcos falarão sozinhos, e rirão por último. Rir não da piada, mas de nós.

Pois o que está em jogo não é apenas a liberdade de um homem, mas o direito de um povo rir do próprio infortúnio. Porque quem não pode mais rir, já começou a morrer.

“Se rir virou crime, o silêncio virou regra.” Léo Lins