Não disse antes, mas agora gostaria de contar-te, caro leitor, como fui batizado Chamaram-me Brasil.

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Nome curto, redondo, eufônico, parecia promissor. Dava bons slogans, cabia em hino e cabia em moeda. Mas, por dentro, havia rachaduras.

Fui batizado República antes mesmo de aprender a respirar como tal. Ato solene, com banda, proclamação e bigode.

Mas faltava-me o povo, e sobravam-me padrinhos.

Dizem que a República me libertou.

Mas lembro bem: apenas mudou a mobília. Saiu o trono, entrou a farda.

Saiu a coroa, entrou o timbre seco do decreto.

A plebe aplaudiu, mas ninguém lhe perguntou nada.

Nasci no alto, na caneta, longe da rua.

Minha certidão não veio do povo, veio de uma quartelada.

Choraram “Ordem e Progresso” sobre meu berço, mas esqueceram de me ensinar a distinguir uma da outra.

E desde então, tenho vivido no intervalo entre o grito e o suspiro.

A República me prometeu igualdade.

Mas entregou-me privilégios empacotados em discursos solenes.

Trocou a figura do rei por uma multidão de chefes, cada um com sua própria coroa invisível. Não nego meu passado, o que me assombra é o presente disfarçado de futuro.

Logo cedo, fui apresentado aos ritos: eleições, palanques, hinos, siglas, slogans. Mas por trás das cortinas, vi que os cordéis eram puxados pelas mesmas mãos. E o verme…

Ah, o verme…

Nesse novo regime, ele ganhou cargos.

Instalou-se nos gabinetes, nos contratos, nas colunas dos jornais. Mudou de terno, aprendeu jargões e passou a frequentar jantares. Tornou-se patriota e patriota muito eloquente.

Vieram os salvadores de quatro em quatro anos. Cada um mais messiânico que o anterior.

Prometiam refundar, reconstruir, resgatar.

Mas esqueciam que para reconstruir, é preciso antes parar de demolir.

Aos olhos do mundo, tornei-me exótico:

O país do amanhã.

O país do jeitinho.

O país da esperança.

Mas eu, por dentro, já pressentia o colapso.

E o colapso, leitor… esse não veio de fora. Veio de dentro.

Veio como se vêm os segredos antigos:

silenciosamente, devorando-me pelas beiradas. sentado a mesa em meio a um brinde,

e desde então, venho sendo bebido até a última gota, e foi assim que nasci.