A famosa frase de Guimarães Rosa, “Minas são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais”, retrata uma realidade: Minas Gerais é um retrato do Brasil. Dentro do território mineiro, temos a porção nordestina, com mercados centrais que vendem variações de farinha de mandioca, carne de sol e famosas cachaças; a “Minas Profunda”, onde está a mística São Tomé das Letras; a Minas Gerais do centro-sul, destacada na topografia e na cultura metropolitana de Belo Horizonte, a parte mais cosmopolita do estado; o sul de Minas, mais paulista e com uma consciência ecológica admirável; a Zona da Mata, mais carioca, onde se torce para Vasco ou Flamengo e se considera Belo Horizonte uma “roça grande”; e o Triângulo Mineiro, mais goiano, onde se come arroz de suã e se ouve música sertaneja.
Minas Gerais, um Brasil dentro do Brasil, permite análises sociais, políticas e culturais do país. Analisando as poesias mineiras, encontramos algo que define o brasileiro: melancolia. O brasileiro vive uma sensação melancólica, marcada por uma culpa que leva a um desequilíbrio entre emoção e intelecto, resultando em uma hipertrofia da função cognitiva e no aumento da capacidade de raciocinar sobre seu estado. Isso faz com que o indivíduo melancólico não reaja, mas viva uma ansiedade de mudar a realidade, elaborando construções tardias que já falharam no passado, espelhando-se em antigas utopias e envolvendo a sociedade em imagens de morte e desgraças, seja por um sentimento vívido de tristeza, seja por uma angústia existencial frente ao fluir do tempo.

O olhar da poesia mineira reflete o brasileiro em geral, de norte a sul, ruminando seu passado e interrogando seu futuro. Uma nação que se constitui como um contraponto crítico ao Brasil mítico pintado pelos filmes, futebol, samba e poesias. O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade retrata essa melancolia à moda brasileira no poema “Lanterna Mágica”, feito especialmente para Minas Gerais.

Transformando esse poema em uma alusão à melancolia da política brasileira atual: “Meus olhos têm melancolia” sinaliza a perspectiva do indivíduo entorpecido e indiferente a quem ocupa a presidência, afinal, políticos são todos iguais. A cidade é velha e as “árvores são repetidas”, indicando que escândalos, corrupção e promessas não cumpridas se repetirão. “Debaixo de cada árvore dependuro meu paletó”, mas apesar disso, o poeta faz desse lugar sua morada. Afinal, não é assim o brasileiro? Senta, chora e briga, mas no final acaba se acostumando e fazendo dessa bagunça seu país.

“Pelos jardins de Versailles” reflete a ideia de copiar as belezas típicas da modernização de outro país, desejando algo melhor, mas esquecendo que o jardim foi feito por uma rainha gastadora que perdeu a cabeça. Assim, ficamos com uma “modernidade de velocípedes”, uma versão barata e mais fácil. Afinal, somos ou não o “jeitinho brasileiro”?
“E o velho fraque na casinha de alpendre com duas janelas dolorosas” retrata o velho fraque, traje de cerimônias, sinal de cosmopolitismo, à casinha de alpendre colonial; e assim, com sutileza, o brasileiro se contenta com o traje de festa em uma realidade de pobreza. Vemos que, apesar de Carlos Drummond ter descrito a metrópole mineira e Guimarães Rosa ter dito que poucos conhecem as mil faces das Gerais, terminamos analisando a face do Brasil e do brasileiro, porque, no fim, o mineiro é poeticamente o brasileiro.
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