16/10/2025. Uma quinta-feira comum em Belo Horizonte, a intensa capital mineira. Saí do trabalho e dirigi meu velho e estimado carango até a porta da casa da minha namorada, onde encontrei uma vaga banhada pela sombra de uma bela árvore. Para melhorar, a vaga estava em frente ao portão por onde eu precisaria entrar. Estacionei, certifiquei-me de retirar minha bolsa e carteira e tranquei o carro.

Acompanhe o MBL no YouTube Análises políticas, debates e bastidores exclusivos
Inscrever-se

A rua é movimentada. Como de costume em BH, tem ótimos bares. Como de costume no Brasil, tem um supermercado que oferece duas sacolas de mantimentos básicos por apenas R$ 300. Como de costume nas últimas décadas, é repleta de câmeras, cercas elétricas e grades.

O combinado era o seguinte: passaria a noite ali e logo cedo sairia para enfrentar outro dia útil. Como de costume.

Contudo, apesar da boa noite de sono e do clássico pão de queijo no café da manhã, ao passar pelo mesmo portão e me dirigir ao carro, fui surpreendido.

Um homem de uns 40 anos, que evidentemente estava indo para o trabalho, pelo uniforme e pela mochila que visivelmente carregava uma quentinha, me perguntou, ao me ver chegando:

“Poxa, amigo, quebraram o seu vidro?”

Assustado, contornei o veículo e constatei: alguém tinha estilhaçado o vidro traseiro do meu carro. Os papéis e documentos que estavam no porta-luvas foram revirados.

Indignado, abri a porta e entrei. O aparelho de som seguia intacto. Aparelho de som que ainda toca CD e reproduz as rádios belorizontinas. Terminei a conferência chegando à conclusão de que a pessoa que tinha feito aquilo não obteve qualquer vantagem. Não achou dinheiro, não achou bens e deixou até mesmo o meu velho aparelho de som.

Voltando à realidade, me dirigi ao homem que havia me alertado sobre o vidro estilhaçado. Sem perceber, ele ficara postado ao lado do carro, lamentando comigo, como se o carro fosse dele, por mais que estivesse indo para o trabalho a pé.

“Acho que quebraram o meu vidro sim, amigo, e não levaram nada.”

Naquele momento, muita coisa passava pela minha cabeça.

Por que alguém escolheria o vidro de um Voyage de mais de quinze anos para quebrar? Ainda mais considerando que não havia nada de valor à mostra.

Por que alguém não levaria o aparelho de som? O vidro estava quebrado, o carro revirado… por que perder essa oportunidade?

Provavelmente, quem tinha feito aquilo estava longe da sanidade. Quebrou um vidro sem pensar nas consequências, à procura de algo que talvez lhe fornecesse condições de sobreviver ou de alimentar tudo aquilo que o mantinha longe da sanidade.

Mesmo me forçando a acreditar que a vida do vândalo desconhecido era, com certeza, mais triste do que a minha, pouco a pouco minha chateação se transformava em raiva pura e absoluta.

Comecei a pensar na quantidade de deveres e obstáculos que enfrentei no dia anterior e nos que ainda teria de enfrentar naquele dia.

A vaga de estacionamento. O rotativo. As leis de trânsito. A entrega do meu trabalho. A boa relação com meus colegas, que pouco tinham a ver com os meus problemas. A hora certa de chegar. O IPVA. O conserto do vidro. A ameaça de nuvens carregadas sobre o banco de trás de um dos meus poucos bens. O olhar compadecido daquele homem que, com a vida aparentemente mais complicada do que a minha, tinha parado para se solidarizar com o meu vidro quebrado.

Por outro lado, o criminoso, provavelmente viciado, que tinha estilhaçado o vidro do carro que consegui comprar depois de trabalhar como frentista de posto por dois anos e com a ajuda do meu velho pai, passaria o dia como nas últimas centenas de dias: sem ter que cumprir qualquer dever dos que citei, ou de todos os outros aos quais os brasileiros não vândalos são submetidos.

Mais do que isso: a pessoa que fez essa sacanagem possui inúmeros direitos que eu não tenho e que talvez nunca terei.

O direito de usar drogas na rua sem qualquer represália.

O direito de ter comida e abrigo gratuitos disponibilizados pelo governo.

O direito de recusar a comida e o abrigo.

O direito de dormir na rua às 15h da tarde e roubar pessoas às 3h da madrugada.

O direito de cometer crimes e sair completamente impune.

Tudo isso eu pensava.

Sem qualquer escolha, afinal, meus deveres continuavam batendo à porta, despedi-me da minha namorada e dirigi até o trabalho. Paguei um estacionamento coberto. Subi no elevador para mais 8 horas (sendo otimista) de labuta.

Amargurado e repassando repetidamente os pensamentos que contei, resolvi compartilhar o acontecido com meus colegas de jornada. E, sem qualquer intencionalidade, meus caros colegas fizeram questão de me lembrar que eu moro em uma capital, pior, em uma capital do Brasil.

Depois de fazer o relato, esperei que as perguntas fossem no seguinte sentido:

“Você encontrou o vândalo? Ele pagou pelo que fez?”

Contudo, talvez pelo fato de meus colegas morarem aqui há mais tempo, talvez por serem mais velhos, talvez por não serem tão inocentes quanto eu, ouvi deles os seguintes questionamentos:

“Mas o seu carro tem seguro?”

“Você tinha deixado mochila, carteira ou celular à mostra?”

“A casa da sua namorada não tinha garagem?”

Com educação e em um necessário surto estoico, respondi a cada uma das perguntas. Por dentro, se antes sentia raiva, agora o ódio me consumia. Não pelos meus colegas, longe disso.

Mas pelo fato de eu ser um jovem, no 15º andar de um prédio comercial, que trabalharia aquele e pelo menos mais uns dez dias para ganhar o valor que teria que desembolsar para consertar o meu carro.

Não bastasse isso, todos ao meu redor pareceram, na maior das boas intenções, me questionar sobre a quantidade de zelo que tive com o meu veículo. Sem querer, cada uma das perguntas fez parecer que o errado em toda aquela história era eu.

Irresignado, cogitei dizer, também na maior das boas intenções, que, ainda que o meu carro não tivesse seguro, ainda que houvesse garagem com muros e cercas, ainda que não fosse uma rua movimentada e repleta de câmeras, e ainda que eu tivesse deixado celular, carteira e mochila escancarados no banco de trás, aquele sujeito não podia ter quebrado o meu vidro.

Mas preferi não dizer o óbvio, já que provavelmente soaria rude. Rude porque as perguntas dos meus colegas mais pareceram conselhos e demonstrações de empatia, que aos ouvidos de um jovem trabalhador raivoso soaram absurdas.

Findado o turno, pensei em passar em um dos belos bares que comentei para tentar fugir da realidade. Por sorte, antes resolvi ligar para as oficinas que poderiam reparar o vidro quebrado. Após constatar o valor do prejuízo, segui para casa. Tinha acabado de descobrir que cada cerveja que eu deixasse de beber serviria para ajudar no prejuízo mais injusto que já tive.

Guardei o carro na garagem descoberta do meu apartamento. Ou melhor, do apartamento que alugo. Tomei um banho, deitei-me e orei para que naquela noite Belo Horizonte não recebesse uma chuva.

Pelo que quer que se acredite, o meu pedido foi atendido. Levei o carro seco e quebrado até a oficina que me apresentara um orçamento salgado, ao menos menos salgado que os outros.

Ao chegar lá, deparei-me com outro fato assustador, mas não mais surpreendente: mais de uma dezena de carros com o vidro quebrado. Alguns mais novos, alguns mais velhos e alguns bem velhos. Todos com algo em comum: um motorista chateado, também repleto de deveres e usufrutuário de poucos direitos.

Vi que não existia apenas um vândalo, mas dezenas deles. Vi que não havia apenas eu inconformado, mas vários lesados.

Lembrei do homem que havia me alertado sobre o vidro na manhã anterior. Apesar de não ter um carro, a sua mochila de quentinha ou o celular que carregava no jeans surrado também poderiam ser levados em qualquer dia e a qualquer momento por uma das dezenas de vândalos impunes que habitam e ocupam as ruas da capital.

Lembrei da minha namorada, que divide a casa, sem garagem, com outras meninas, pelo preço salgado do aluguel. Salgado pela necessária proximidade com o local de trabalho, já que o transporte público não funciona bem e o Uber precisa ficar barato. Sem falar que cada corrida precisa ser calculada para ser pedida ainda dentro de casa ou dentro do trabalho, já que a rua está repleta de pessoas como a que ultrajou o meu carro.

De volta do lapso, perguntei ao mecânico:

“Isso é normal? Digo, ter tantos carros assim?”

Então, com uma risada de canto e em tom de consolo, ele respondeu:

“Pior que sim. São muitos carros por dia, como de costume.”

Finalmente, lembrei que, como de costume em BH, os bons bares estão sempre lotados de pessoas compartilhando episódios injustos como o meu.

Lembrei que, como de costume no Brasil, mais se questiona a maneira como você evita e lida com as injustiças do que se enfrenta e responsabiliza quem as causa.

Lembrei do porquê, nas últimas décadas, é costume que as coisas estejam tão caras e as ruas repletas de câmeras, cercas e vidros quebrados.